09 de julho de 2026
Internacional

‘É melhor morrer em nossa casa', diz família libanesa

Folhapress
| Tempo de leitura: 2 min

Beirute - Em seu pequeno porão, Mohammed Daher passa longas noites com os filhos e os netos jogando xadrez e baralho e rezando para que o bombardeio termine. Aos 66 anos, ele já viu muitos conflitos no Líbano, a começar pela primeira guerra entre árabes e israelenses, em 1948. Duas vezes ele abandonou sua casa debaixo do bombardeio israelense. Mas desta vez decidiu que está velho demais para fugir da guerra do Estado judaico contra o Hizbollah.

“Ninguém vive mais do que está escrito. Se vamos morrer, preferimos morrer aqui”, disse Daher, um homem alto de cabelos cheios e grisalhos, enquanto tomava um gole de café. “Muita gente fugiu. As pessoas estão com medo dessa agressão bárbara.” O vilarejo de Kfar Rumman fica perto de Nabatiyeh, uma cidade comercial no sul, alvo de pesados ataques aéreos.

“Quando sentimos que o bombardeio está perto, sempre pensamos em ir embora, mas ficamos aqui porque não temos para onde ir”, disse a filha de Daher, Maya, 23 anos, professora de biologia. “Não queremos ficar como os palestinos de 1948, que fugiram de casa e nunca mais puderam voltar”, disse ela.

Israel diz que pretende acabar com os recursos militares do Hizbollah, e não invadir o Líbano, como fez em 1982, quando chegou até a capital libanesa, Beirute. Com mais de três semanas de guerra, milhares de soldados israelenses estão enfrentando fortes combates com xiitas em território libanês.

Jogando cartas e assistindo aos telejornais em um televisor preto-e-branco, os netos de Daher contaram sobre o medo que sentem à noite, quando as bombas se aproximam. Alguns precisam de calmantes para dormir. “Quando as crianças ficam sabendo dos massacres em outros vilarejos elas ficam apavoradas”, disse Daher, ao som de explosões à distância.

Uma pilha de colchões ocupa um dos cantos do abrigo, onde há também uma foto do Imã Ali, o primo do profeta Maomé reverenciado pelos xiitas.Os Daher tiveram de se adaptar à nova realidade usando sua pequena horta e seu pomar. De sobremesa, eles comem uvas e figos. “Não dá para viver direito com uma guerra a cada cinco ou seis anos.”