09 de julho de 2026
Internacional

Governo Bush sofre pressão para colocar fim a embargo

Por Sérgio Dávila | Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Nova York - É a economia, estúpido. Um dos lemas da campanha de Bill Clinton em 1992 pode resumir a pressão que a Casa Branca vem sofrendo desde terça-feira para aproveitar o momento histórico e levantar parcial ou totalmente o embargo econômico do país a Cuba, que já dura 45 anos.

Os motivos são três: petróleo, eleições do fim do ano e Raúl Castro, não necessariamente nessa ordem. A começar pelo último: na percepção do Departamento de Estado americano, corroborada por analistas conservadores como o ex-chanceler mexicano Jorge Castañeda, o irmão de Fidel Castro e líder-em-exercício cubano seria adepto do chamado “modelo chinês” de transição comunista, com abertura econômica, sem abrir mão do controle político.

“Se ele se consolidar no poder, poderá ser o reformista de Cuba”, disse Castañeda recentemente. Há dois anos, Cuba descobriu uma das maiores reservas submarinas de petróleo do mundo, a 100 km da costa da Flórida e a 35 km de Havana. Antes de adoecer, Fidel dividiu a região em zonas e autorizou a exploração. China e Canadá já estão em atividade.

Com as constantes crises no Oriente Médio e o aumento do consumo doméstico, os EUA viram nos últimos meses o galão da gasolina atingir o recorde de US$ 3. A questão toda da política energética é citada nas pesquisas de opinião como fator decisivo na hora do americano definir seu voto nas eleições que acontecem em 100 dias e renovarão parte do Congresso dos EUA e alguns governos de Estado.

“O fato de Raúl estar no poder é uma oportunidade, e uma oportunidade produz possibilidades”, define Larry Birns, diretor do Council of Foreign Affairs, baseado em Washington.

Isso explicaria em parte a demora do comunicado oficial de George W. Bush sobre a transferência temporária do poder em Cuba, que acabou vindo ontem à tarde, em linguagem bem mais contida do que a usada pelo presidente nas últimas vezes em que falou do cubano. “Os EUA estão monitorando ativamente a situação em Cuba que se seguiu ao anúncio da transferência de poder”, começa o texto, assinado por Bush.

“Nessa hora de incerteza, uma coisa é clara: os EUA estão totalmente comprometidos a apoiar as aspirações do povo cubano por democracia e liberdade.” Mais adiante, avisa: “Nós vamos apoiá-los em seu esforço de construir um governo de transição comprometido com a democracia em Cuba e estaremos atentos àqueles que, no atual regime cubano, obstruírem seu desejo por uma Cuba livre”.

Bush está entre dois fogos na questão de lidar ou não com Raúl por interesses econômicos. Por um lado, não pode alienar a ala mais conservadora de seu partido, liderada pelos cubanos-americanos da Flórida, Estado que lhe deu a vitória nas eleições de 2000 e que é governado por seu irmão, Jeb, ele próprio presidenciável.

Por outro lado, vê na transição de poder uma oportunidade de cortar a cada vez mais crescente influência da Venezuela, hoje o principal parceiro econômico de Cuba, na economia local e se livrar da dependência do petróleo do Oriente Médio.