08 de julho de 2026
Bairros

Moradores transformam favelas em ‘sítios’

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Fazer plantações em plena cidade grande ou criar animais a poucas quadras de bairros movimentados pode até não ser uma manifestação rural no meio urbano, mas que lembra vida na roça isso não dá para negar.

O jardineiro Juarez da Silva Padilha, por exemplo, montou uma pequena chácara em sua casa, na favela do Parque das Nações, zona sul de Bauru. Em seu quintal há horta, mula, galinha, marreco, peru... Até um tanque de criação de tilápias ele tem.

“Faço isso por que gosto, é mais para consumo próprio”, diz Padilha, que é paranaense e vive em Bauru desde os 23 anos. Desde que chegou à cidade, ele trabalha em atividade ligadas à terra. “Até vaqueiro eu já fui”, lembra.

Em outra parte da cidade, um homem também vive como se estivesse em plena zona rural. José Luís dos Santos mora no Jardim Nicéia e tem um sítio de oito alqueires nas proximidades do bairro, onde cria galinhas, porcos e vacas. O trabalho no “campo” é difícil.

“Essa vida é muito penosa, não tenho domingo ou feriado para descansar”, afirma ele, numa terça-feira chuvosa, enquanto usa uma enxada para revolver a terra de uma cova onde plantou um pé de acerola.

As dificuldades de reproduzir-se o campo no interior da cidade não vêm apenas do trabalho duro. Os gastos também atrapalham aqueles que querem dar uma de agricultores urbanos. Padilha, que tem 45 galinhas, gasta cerca de R$ 500,00 ao mês para manter toda a bicharada que habita em seu terreiro.

“Se eu fosse pensar friamente, diria que não compensa, mas é que gosto muito de criar esses bichos”, reconhece ele, que ganha ao mês R$ 700,00.

Os gastos são referentes à ração que ele usa na alimentação dos animais. Para alguns produtores, a atitude de Padilha é luxo. “Tratos meus porcos com lavagem, ração só uso para complementar a alimentação dos bichos”, afirma Santos.

Nos bairros de periferia, alimentação natural acaba sendo a única opção existente para porcos, vacas e cavalos. Durval, que cria suínos no Parque das Nações, não gosta de variar cardápio de seus bichos. “Dou lavagem mesmo, pois assim evito gastos”, conta ele, que preferiu não fornecer sobrenome.

Mas engana-se quem pensa que os porcos de Durval comam qualquer coisa. Eles se alimentam com sobras de restaurantes caros da zona sul da cidade. Talvez por isso procriem tanto. “Perdi a conta de quantos animais vivem em minha casa”, diz ele.

Apesar de trabalhosa, a atividade de Durval tem sido promissora. Só no natal do ano passado, ele vendeu 80 porcos. “Com essa criação sustento minha família e não tenho do que reclamar”, garante. Mesmo fora das épocas de festa, as negócios continuam em alta. “Mês passado consegui vender 40 animais”, assegura.

Durval já criou cabras e vacas em seu terreno, mas preferiu enveredar-se pela suinocultura. “É mais lucrativo e dá menos gasto”, garante. Talvez a identificação de Durval com os suínos venha da época da infância. “Desde os 13 anos crio porcos em minha casa”, diz.

Seu apreço pelos bichos é tamanho, que ele chega a colocar em dúvida a afirmação de que os porcos possam transmitir doenças ou que as fezes dos animais possam colaborar para a proliferação de insetos como mosquito palha (transmissor da leishmaniose). “Se fosse assim, eu já não teria ficado doente?”, questiona com firmeza.

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Javali

Ele não é galo, mas é rei do terreiro, ou melhor, do chiqueiro. Pesando mais de 200 quilos e dotado de presas afiadas, Chico é um javali africano que vive a poucas quadras do Núcleo Jardim América, zona sul da cidade.

Sua morada é uma propriedade na favela Parque das Nações, onde são criados cerca de outros 80 animais, entre porcos, leitões e “javaporcos” (expressão criada por Durval, proprietário do local, para designar o resultado do cruzamento entre os suínos domésticos e selvagens).

Chico é um javali ciumento. “Se ele pegar os outros dois machos que vivem aqui, é certo que irá matá-los”, diz o dono, que cria porcos há dez anos e preferiu não fornecer o sobrenome, por temer problemas com a fiscalização sanitária.

Chico também é temperamental. “Certa vez, ele escapou e tive de colocar cinco cachorros para persegui-lo”. Foi quando quase aconteceu uma tragédia. Acuado pelos cães, o javali resolveu usar seu direito à legítima defesa.

“Por pouco ele não mata um boxer a dentadas, naquele dia”, assegura Durval, que socorreu às pressas o animal ferido e salvou-lhe a vida. Apesar desses histórico, o dono garante que Chico é um animal tranqüilo. “Sempre limpo o cercado com ele dentro e nunca me ocorreu nada”, garante.