10 de julho de 2026
Bairros

Tibiriçá mantém ‘jeitão’ de cidade de Interior

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Com jeito de cidadezinha de Interior, Tibiriçá é Bauru, mas nem parece. O distrito de aproximadamente 3.000 habitantes (segundo estimativas da Prefeitura) é quase uma antítese de “Cidade sem limites”. Os moradores são poucos (cerca de 3.000, incluindo a área rural) e conhecessem-se pelo nome.

Nascidos ou não no local, todos têm em comum o mesmo carinho pelo bairro, cujo nome deriva da antiga estação de trem, inaugurada em 1906 pelo então presidente do Estado de São Paulo, Jorge Tibiriçá, que por sinal acabou emprestando o sobrenome à estação.

“Não há melhor lugar no mundo para se morar”, garante o aposentado José Basílio, de 71 anos, que já trabalhou como vaqueiro, motorista e há 66 anos vive no local.

O apego ao distrito é comum entre os moradores mais antigos. Zenir Rangel Duarte tem 77 anos e nasceu no bairro. Ela é filha de um dos pioneiros de Tibiriçá, José Pereira Rangel. “Faz 86 anos que papai veio morar aqui”, conta ela.

Ele, que já morreu, era dono do posto de gasolina do distrito, local onde Duarte chegou a trabalhar, entre 1957 e 1963. “Acredito ter sido uma das primeiras frentistas de região, pois na época as mulheres não exerciam essa profissão”, diz ela.

Duarte afirma nunca ter pensado em viver em outros lugares, como Bauru, por exemplo. “Não dá, nasci nesta casa, moro nela até hoje e só me mudo daqui para a ‘morada eterna’”, brinca.

Apesar de parecer radical, a visão de Duarte é compartilhada pelos demais moradores de Tibiriçá. “Tem lugar melhor para alguém viver?”, questiona Wilson Hildebrando Martini, que tem 54 anos e é criador de gado.

Martini vai a Bauru duas vezes por semana, quando precisa ir ao banco ou fazer compras no supermercado. “Mas não dá para trocar aqui por outro lugar”, pensa.

Local pacato, Tibiriçá também atrai admiradores devido à qualidade de vida que proporciona a seus moradores. O aposentado Divino Ferreira Queirós vive há seis anos no distrito. “Este bairro é muito tranqüilo, as pessoas podem deixar a bicicleta para fora de casa que ninguém rouba”, garante.

Uma caminhada pelo lugar ajuda a comprovar as palavras de Queirós. Os muros das residências são baixos (funcionam mais como ornamento do que qualquer outra coisa) e os portões quase nunca têm cadeados.

“Se fosse como em Bauru, as casas precisariam estar rodeadas de alambrados”, brinca o aposentado Antônio Duarte Filho, de 80 anos, que é esposo de Duarte. Apesar da tranquilidade, os moradores reconhecem que a segurança pública já teve seus melhores momentos em Tibiriçá.

O problema é referente ao policiamento do bairro. Em épocas anteriores, o distrito contava com policiais residindo em sua área. “Mas, de uns tempos para cá, mudaram tudo e ficou apenas uma viatura, que faz a ronda durante algumas horas do dia apenas”, reclama Duarte (leia mais no texto abaixo).

Apesar dos problemas, os moradores quase não têm do que se queixar em relação à qualidade de vida do bairro, que, além de tranqüilo, conta hoje com diversos programas sociais da prefeitura. O Centro de Referência de Assistência Social (Cras) de Tibiriçá, por exemplo, atende hoje 183 famílias.

A unidade, mantida pela Secretaria de Bem-Estar Social de Bauru (Sebes), faz encaminhamento de pessoas para programas públicos assistenciais. “É como se fosse uma porta de entrada para a Rede de Proteção de Prefeitura”, explica Adriana Rocha Puttini, diretora da divisão responsável pelos centros de referência.

Além do Cras, a prefeitura mantém no bairro projetos de geração de renda, alfabetização de adultos e de saúde comunitária.

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Padrinho

Em lugarejos do Interior é comum que as pessoas chamem-se umas às outras de compadre ou comadre. Wilson Hildebrando Martins, que vive há 43 anos em Tibiriçá, deve estar mais que acostumado ao tratamento. Ele ostenta uma marca que talvez seja difícil de ser batida por outro morador da região onde vive.

As 54 anos de idade, Martins já foi padrinho de 51 matrimônios religiosos, tanto no distrito quanto em outras cidades da região. “Participei de casamentos em Tibiriçá, Bauru, Arealva, Iacanga...”, conta ele, que tem um sítio e vive da criação de gado.

Afilhados também não faltam a Martins. “Até hoje batizei 32 crianças”, assegura ele, que tem barba grisalha, usa trajes simples (chapéu e bota) e é avesso a fotografias.

Padrinho de um multidão, Martins precisa desdobrar-se na hora de dar presentes. “Tem sempre alguém pedindo um boi para fazer churrasco de casamento ou algum afilhado querendo ganhar cavalo, bicicleta, quando chega Natal ou aniversário”, diz.

Engana-se quem pensa que Martins incomoda-se com as obrigações de padrinho. “Gosto de presentear, pois nunca me fez falta. Além disso, é bom fazer as outras pessoas felizes”, acredita.