08 de julho de 2026
Nacional

Sonho de ser mãe tem sido adiado

Por Juliana Coissi | Folhapress
| Tempo de leitura: 2 min

Ao ouvir o choro de Gabriel, a bancária Lucinéia Borges, de Ribeirão Preto, não resistiu às lágrimas e chorou junto com o primeiro filho. Amamentar, acordar na madrugada, levar à escolinha: tudo seria mais difícil na rotina da mãe de primeira viagem, não fosse a calma e experiência acumuladas em 48 anos de vida. A mudança de comportamento da sociedade aliada aos avanços da medicina têm permitido que mulheres invistam na carreira profissional e adiem cada vez mais o sonho de ser mãe.

Em Ribeirão, pelo menos 49 mães deram à luz após os 40 anos de idade nos últimos seis meses, de um cenário de 1.871 crianças nascidas. É o que revela levantamento feito pela reportagem em dois dos três cartórios civis dos bebês registrados entre 1 de outubro de 2005 e 5 de maio deste ano.

Dedicada ao trabalho, Lucinéia casou-se tarde, aos 42 anos, e foi buscar a ajuda da medicina para engravidar. Até nascer Gabriel, foram quatro tentativas - uma sem sucesso e três abortos. “Ficava muito triste. Mas depois me animava e voltava a tentar’’, conta a mãe, que se emociona com a nova fase. “Toda mulher deve ser mãe. Quando a criança te olha, dá aquele sorriso, é um prazer imenso.’’

Aos 45 anos, a coordenadora de vendas Rosângela Guagneli viveu a alegria do primeiro Dia das Mães com Henrique, na época com 1 mês. “Agora pude participar como homenageada, não só como homenageante.’’ O primeiro filho veio após cinco anos de casada e duas tentativas pós-tratamento.

A medicina considera dos 20 aos 30 anos o período ideal para as mulheres engravidarem. A partir dos 35, a gravidez é considerada de risco, o que se agrava depois dos 40. Nesta faixa, em que o ovário envelhecido produz muitas vezes óvulos imperfeitos, a taxa de fertilidade cai até 30%.

“O problema não é mulher de 40 anos, é o ovário de 40 anos. Ela pode ser jovem, fazer exercícios, mas o organismo não pensa como essa mulher’’, afirma o médico especialista em reprodução humana, José Gonçalves Franco Júnior.

Em caminho oposto às que buscam tratamento, aos 45 anos, a doméstica Sebastiana Purificação da Silva deixou de tomar anticoncepcionais quando descobriu estar grávida de Sara Vitória, 4 meses. Sua segunda filha, gerada aos 40, também foi inesperada. Sebastiana teve o primeiro filho quando jovem, há 23 anos. “Agora, é mais gostoso, a gente está mais madura, curte melhor. Antes não tinha noção do que estava acontecendo.’’

Como ela, o despreparo envolve muitas jovens que se tornam mães cedo. Depois de dar à luz aos 40, a comerciante Luzia Akiko Tomisaki repetiu a dose e teve Leonardo, aos 45 anos, sem tratamento. “Sempre achei normal, minha família também casou tarde.’’