08 de julho de 2026
Mulher

Multiplicidade de papéis é forma de segregação

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 2 min

Com aproximadamente três décadas de experiência na área de pesquisa, a livre docente Maria Cecília Bevilacqua é professora titular da Universidade de São Paulo (USP), chefe do departamento de fonoaudiologia e coordenadora da equipe interdisciplinar de implante coclear do Centrinho.

O extenso currículo profissional da cientista é exemplo de dedicação e persistência, características típicas da mulher pesquisadora no Brasil, tema do livro “Ciência, Tecnologia e Gênero: Desvelando o Feminino na Construção do Conhecimento” (Instituto Agronômico do Paraná - Iapar).

Assim como muitas cientistas, Maria Cecília enfrentou algumas barreiras no meio científico. A principal delas foi a necessidade de conciliar a vida profissional e os papéis de mãe, esposa, mulher e dona de casa. “Toda mulher entende o sentimento de se deixar um filho no berçário porque precisa sair para trabalhar”, diz.

Segundo ela, isto fica ainda mais difícil quando se trata de atividades que utilizam conhecimento e reflexão. “Quando ela precisa focar a atenção no seu computador ou papel, acho que sua cabeça sai dali e vai ‘encontrar’ o filho, a casa, as compras do supermercado, o companheiro, a questão de sua estética e seu jeito de ser. Ela tem que se dividir nesta multiplicidade de mulheres que são restritas em uma só.”

Para a professora, apesar de conquistar seu espaço na área de pesquisa e tecnologia, a mulher ainda não deixou de ter um certo sentimento de culpa por precisar abrir mão de alguns momentos a mais com os filhos ou dedicação à casa, por exemplo. “Acho que este é um grande desafio”, diz.

Maria Cecília compartilha de opinião semelhante às organizadoras do livro, apontando que grande parte desta segregação feminina no meio científico se deve à educação de meninos e meninas. “Eu brinquei de casinha em toda minha infância. Não brincava de Lego, blocos de construção, de montar pontes ou prédios. Então, a mulher fica muito tempo experimentando e formando dentro do seu imaginário o de cuidar da casa, do filho, trocar fralda e fazer comida”, avalia.