08 de julho de 2026
Regional

Presos ensaiam discurso ‘paz e amor’

Por Cláudio Dias | Tribuna Impressa, especial para o JC
| Tempo de leitura: 2 min

Araraquara - Os 32 presos que saíram, ontem, da Penitenciária de Araraquara (117 quilômetros de Bauru) mantiveram um discurso único: não temos ligação com facção criminosa, não cometeremos ataques e só vamos ficar com nossas famílias. O sentido “paz e amor” nas conversas espera-se que seja mantido também até segunda-feira, às 16 horas, quando eles devem retornar ao presídio. Dos dois Centros de Ressocialização (CRs) saíram mais 40 pessoas. Em todo o Estado, segundo estimativas, entre dez e 12 mil detentos estão em liberdade. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) acha que inibir a saída dos indultados deflagraria uma explosão no sistema carcerário.

Sebastião, 60 anos, 22 deles vividos dentro da prisão por crimes como tráfico, furto e homicídio, já saiu quase 30 vezes de indulto e sempre retornou no horário estabelecido. Sentado em um bar tomando uma cerveja em frente a portaria da penitenciária, ele conta nunca ter sido punido na cadeia, mesmo cumprindo a sentença quase integral. “Estamos no semi-aberto e com a pena quase terminada. Você acha que vamos aprontar e ficar mais tempo nesse inferno?”, questiona o senhor de Taquaritinga, recolhido na unidade desde 1987.

Ao lado dele estava um também conhecedor do sistema prisional. Wilson, 49, é de Ibitinga e cumpre pena por roubo. Ao longo dos quatro anos de prisão saiu cinco vezes para ver os três filhos. Ele também nega que os colegas irão cometer algum atentado na rua como ocorreu no Dia das Mães. Fábio, 39, concorda com o companheiro de prisão. “Só quero ver minha família e depois terminar de pagar (cumprir) a minha cadeia”, conta o araraquarense condenado há oito anos por roubo e porte de arma.

Participando de um congresso na cidade, Luiz Flávio Borges D´Urso, presidente da OAB de São Paulo, defendeu a saída temporária dos presos. “É preciso esclarecer que se trata de um instituto que está na lei e concede a saída do preso em datas comemorativas”, diz D’Urso afirmando que esses internos já estão acostumados com uma certa liberdade, ao contrário dos detentos do regime fechado que não tem direito ao benefício.

“Essa celeuma da sociedade, a rigor, não tem causa. Esses presos diariamente estão nas ruas trabalhando em suas atividades e só dormem no presídio”, completa. A OAB não encara a saída dos presos como um risco para a sociedade, pois, segundo D´Urso, o problema haveria se fossem internos do regime fechado.