08 de julho de 2026
Articulistas

Faz de conta

Luciana Gonçalves
| Tempo de leitura: 3 min

“Quando a vida estiver sem graça, igual, pálida e, sobretudo, triste; não fuja dela pela janela: faça de conta”. Foi assim, aos 4 anos de idade, que eu embarquei, pendurada nas costas de meu pai, para o “mundo do faz de conta”. Quando estiver atrasada, dizia ele, faça de conta que o tempo é um crocodilo que engoliu o relógio. Não tenha medo do tempo, que ele não alcança as almas leves, aquelas que voam alto. Quando a tempestade ameaçar cair à sua janela, com trovões de filme de Drácula e relâmpagos incandescentes, não tenha medo que a chuva apague as luzes. Basta gritar bem alto pelo papai que o escuro se esconde de medo. Não desperdice tempo com nada que não seja brincadeira. Faça de conta que a vida é um grande parque de diversões e o seu bilhete é infinito. Quando alguém rir de você, faça de conta que está num circo. Risadas não fazem mal a ninguém e provocar risos é como ensinar alguém a voar.

Quando passear à noite, de carro, fique quietinha e irá perceber que as árvores escuras das alamedas são feiticeiras fingindo não existir. Não precisa confiar em todo mundo que conhece, filha, mas acredite na magia de conhecer pessoas e extrair sempre o que há de melhor desses personagens incríveis que freqüentam esse mundo sem pé nem cabeça. E não deixe de colecionar fatos, escrevendo no papel aquelas coisas que não podem ser jamais esquecidas. Colecione fotos. Use a velha câmera que eu lhe dei para aprisionar aqueles momentos cotidianos que passam depressa, não apenas as festas especiais. É bom guardar as lembranças em caixas coloridas para, de vez em quando estacionar o tempo, olhando o passado congelado. Não tenha pressa em crescer. Faça de conta que o papai é o Fantasma, ou o Mandrake, ou o Sherlock Holmes. Varie bem, não compensa ficar sempre usando a mesma fantasia. Não perca horas de sonho com aparelhos inúteis. Não se esqueça de conferir as estrelas no céu, todas as noites, e mantenha sua sombra trancada no armário. É bom não correr atrás do dinheiro, filha, mas é importante descobrir as palavras mágicas que irão fazer as portas das cavernas se abrirem pra você. Tenha sempre moedas, muitas moedas no lugar de notas. Moedas dão a sensação de mais riqueza e também dão mais trabalho pra gastar. E quando for aos bailes, minha filha, finja que são filmes. Faça de conta que bailes são apenas sonhos, como as embalagens cor de rosa dos bombons. Não é lá que vai estar seu príncipe encantado e bailes, como filmes, não duram para sempre. Preste atenção ao riso das crianças. Essa gargalhada é o único som que realmente preenche a nossa alma, além de despertar as fadas adormecidas. Não trabalhe de forma árdua, vivendo suas tardes ensolaradas encarcerada numa sala quadrada, perseguindo a sobrevivência, esse dragão que sempre me deu tanto trabalho.

Saboreie os domingos, que eles são curtos. Invista nas conversas, viaje nas histórias das pessoas e defenda os nossos jardins. Guarde quinquilharias no quartinho e nunca jogue fora coisas velhas que ainda podem virar coisas novas. Nunca esqueça que ninguém sabe nada. Jamais perca a mania encantadora da adivinhação, arrisque seus palpites, leia os olhos, o coração e a mão das pessoas. Faça de conta que a vida é pra sempre e que você é semente. No céu, lhe pedirão contas somente disso. Deus é mágico e brincalhão. E foi assim, aos 72 anos de idade que meu pai calou, para sempre, a sua voz. Um mágico inesquecível que me ensinou a alquimia da vida. Obedecendo suas leis fantásticas, eu fiz de conta que acreditei que ele se foi, de uma vez por todas, para a Terra do Nunca. Mas, artíficie de sonhos que me tornei, aos 40 anos, eu ainda faço de conta que não percebo papai voando em torno de mim e soprando ao meu ouvido: “Faça de conta, filhinha, faça de conta”. (A autora, Luciana Gonçalves, é radialista e profissional de telecomunicações e marketing)