Papai, quantas saudades eu sinto do senhor; é difícil para mim apagar da memória a sua lembrança. Costumeiramente, as pessoas são esquecidas à medida em que o tempo passa e vão ficando mais velhas, e nem sempre seus comportamentos são compreendidos pelos familiares. Mas comigo é diferente; jamais esquecerei os tempos em que o senhor era o esteio, o alicerce e a espinha dorsal do nosso lar.Tudo girava em torno do senhor. O senhor, papai, soube conduzir a sua família pela trilha da honestidade, seriedade, amor ao próximo, amizade fraternal, e principalmente orientando seus filhos a temer e respeitar, não só os mais velhos, como também as coisas Divinas. Sob sua direção enérgica, soube nos criar.
Tenho muitas saudades do senhor meu PAI. Ah, se a vida das pessoas boas fosse eterna! Lembro-me perfeitamente, quando criança, que tudo em casa girava em torno do seu esforço, da sua luta, perspicácia e inteligência; somando-se à sua boa vontade, desprendimento, sua saúde, sua coragem. O senhor, papai, lutou muito, mas muito mesmo, sem esmorecer, sem reclamar da chuva, do frio, do calor, da situação econômica; até mesmo contra a sorte que muitas vezes deixou de lhe proteger; ainda assim o senhor não reclamava, e sei que suas forças eram obtidas através de orações a Deus, a Quem o senhor foi sempre fiel. Há alguns anos atrás, papai, quando o senhor começou a caminhar lentamente, arrastando seu chinelinho pela casa; eu me assustei, e não queria acreditar, mas era realidade; aquele homem vigoroso, pragmático, teimoso, começava a dar sinais de cansaço. Também, papai, o mundo foi cruel demais para com o senhor. O senhor viveu as mais amargas experiências aqui na terra.
De tempo em tempo, as decepções afloravam em seu cotidiano; porém, o senhor persistia e rezava e vencia; mas o senhor não conseguiu vencer a velhice, esse fantasma matreiro que a gente acha que nunca irá nos assustar, mas um dia ela chega, e nos alcança, destruindo um passado vigoroso. Toda tarde, quando os sinos da Igreja badalam, anunciando a Ave Maria, aumenta mais minha tristeza, pois não o vejo se preparando, como fazia todas as noites para rezar o seu Terço.
O dia acabou; ergo meus olhos para o céu, agradeço a Deus pelo pai admirável que eu tive, que foi embora aos noventa e um anos de idade, deixando em mim muita tristeza, e ao mesmo tempo sou invadido por uma grande alegria, pois tenho certeza que o senhor papai encontra-se em paz junto a Deus; pois o senhor sempre foi bom filho, bom marido e bom pai; e muito me orgulha de ser seu filho, pois o senhor nunca me decepcionou, e foi um cidadão exemplar, de conduta honrada. Seu passamento deixou um vazio em minha alma; eu perdi uma pérola preciosa, meu maior patrimônio, que foi embora de mansinho,, quietinho, restando-me somente a saudade e a gratidão.
Neste mês dos Pais, não o abraçarei, não sentirei o calor do seu peito, nem o beijarei. Papai, como é triste e lamentável dizer que quantos filhos de coração de pedra, que sequer se preocupam com os pais ainda vivos e conseqüentemente desfrutar da sua amizade, companhia e carinho. O Pai representa tudo para nós. Assim já dizia Rui Barbosa: “Se um dia, já homem feito e respeitado, sentires que a terra cede aos teus pés, que tuas obras se desmoronam, que não há ninguém à tua volta para estender a mão, esquece a tua maturidade, passa pela tua mocidade, volta à tua infância e balbucia, entre lágrimas e esperanças, as últimas palavras que sempre te restarão na alma: meu pai”!
Sebastião Gama da Cunha - advogado - OAB-SP 56.487