10 de julho de 2026
Auto Mercado

Dr. Automóvel: Quando carros viram lendas urbanas

Consultor: Marcos Serra Negra Camerini*
| Tempo de leitura: 4 min

Todos os dias leitores e amigos nos perguntam sobre assuntos técnicos neste nosso mundo do automóvel. São dúvidas procedentes e outras nem tanto, estas provindas das famosas “lendas urbanas”, que contribuem para o folclore automobilístico.

Um dia desses uma pessoa me questionou as razões de um mesmo motor, no caso o 1.8 da GM, que equipa carros diferentes (Monza e Kadett), vir a apresentar mais defeitos em um modelo do que outro. Segundo o que ele me falou, os Kadett com esse motor eram confiáveis e quase não davam problemas, ao passo que os Monza cansavam de permanecer em oficinas.

Sinceramente, nunca vi isso. O Monza foi lançado em 1981, com motor 1.6 a gasolina, depois passou a 1.8, nas versões gasolina e álcool. Era o hoje famoso motor Família II, que inaugurou uma nova fase na GM, com motores transversais modernos que viriam gradativamente a substituir os velhos, porém confiáveis, motores Opala de quatro e seis cilindros e o Chevette. Ainda hoje estes motores estão tocando todos os carros Chevrolet, mas com inúmeras melhorias com relação aos pioneiros.

Mesmo sendo basicamente o mesmo motor 1.8 usado no Monza e no Kadett, eles podem apresentar alguma característica construtiva diferente em função do projeto do carro. Como, por exemplo, o posicionamento do sistema de escapamento, filtro de ar, tanque de combustível, até mesmo um comando de válvulas diferente em função de outra curva de torque desejada para o modelo. Mas nada disso influi no desempenho ou qualidade do motor, independentemente do modelo em que foi instalado.

O que poucos percebem é que o Kadett foi lançado uma geração depois do Monza e que este, só no “finzinho” de sua produção, cruzou com o irmão caçula. Por isso, existem muito mais Monzas velhos e mal cuidados do que Kadetts, o que pode dar a impressão de que são piores do que os Kadetts.

Isto é mais uma lenda urbana, típica fofoca que cresce boca a boca, mas totalmente desprovida de fundamento. Já tratamos de diversas lendas em nossa coluna, como a mistura de álcool na gasolina (ou vice-versa) em motores flex, que muitos pensam trazer melhorias, mas só de ouvir outros comentarem, sem fazer contas para comprovar; falamos do período de troca de óleo recomendado pelo fabricante, mas muitos insistem em ouvir os frentistas, achando que sabem mais.

O ser humano é um animal tido como racional, mas a realidade nos mostra que nem sempre é assim com todos. Muitos dão a impressão de que se recusam a fazer contas, a avaliar individualmente um assunto, a se aprofundar em uma questão. Passam a vida a repetir bobagens ditas por outros, sem questioná-las. Não é necessário ser mecânico ou engenheiro para entender de carro, como não precisa ser relojoeiro para saber ver as horas. Mas um pouco de curiosidade em perguntar coisas que não sabe, até mesmo um pouco de humildade em ler o manual do proprietário, farão uma enorme diferença. Principalmente em seu bolso.

Existem inúmeras revistas especializadas que promovem testes de veículos, de desempenho e de durabilidade, que trazem bastante informação em linguagem leiga. Isso é muito bom, pois dissemina a tecnologia para todos. Agora, procure sempre uma fonte confiável para se socorrer quando precisar (ou quiser) um esclarecimento. Seu mecânico de confiança, sua revista predileta ou mesmo o manual do carro certamente serão de mais valia do que as comadres e fofoqueiros espertinhos espalhados por este mundão...

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CORREIO TÉCNICO

É verdade que rodar com pouco combustível faz aspirar a sujeira do tanque? Isso pode entupir filtros e bicos? José Silva, Bauru

Não. Esta é outra lenda urbana. Muitos não trafegam com pouco combustível por receio de que a sujeira do fundo do tanque seja aspirada, entupindo os filtros. Na verdade, o pescador, ou tubo de sucção do tanque, fica localizado bem próximo ao fundo para aspirar o máximo de combustível do tanque. Desta forma, uma eventual sujeira seria aspirada mesmo com o tanque cheio até a boca. Mas é verdade que com o tanque quase vazio a agitação do combustível no fundo é maior e isto sim pode levantar alguma sujeira, o que é difícil e só acontece em situações muito específicas.

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Sugestões para a coluna e perguntas à seção Correio Técnico devem ser enviadas ao e-mail automerc@jcnet.com.br ou à redação do Jornal da Cidade, na rua Xingu, 4-44, Higienópolis. É obrigatório informar nome completo, RG, endereço e contato (telefone ou e-mail).

*Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e assina uma coluna na revista Quatro Rodas Nitro. Seu site é www.marcoscamerini.com.br.