10 de julho de 2026
Turismo

Zigue-zague rumo ao Vale Sagrado

Eliane Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

De madrugada, em Cusco, antes da viagem, é um movimento só. Turistas das mais diversas nacionalidades acordam por volta das 5h para o transfer até a estação de trem.

Com mochilas nas costas, tênis e água, embarcam tendo como receptivo peruanos impecavelmente trajados.

Jovens escolhidos a dedo servem como ferromoços, convidando os passageiros a uma viagem mágica. O trem é pontual. Parte no horário estabelecido. Nem um minuto a mais nem a menos. Britânico.

Como Cusco fica a mais de 3.400 metros de altitude e é preciso transpor a montanha sinuosa para atingir o vale – o trem não tem como fazer manobras como um ônibus –, terá que procurar outros meios. Por isso o procedimento surpreende: os vagões vão para frente e para trás. Os movimentos em zigue-zague fazem o trem se deslocar, lentamente, até conseguir seguir em linha reta pelos trilhos.

O vai e volta leva mais que meia hora. Período para se avistar toda a cidade de Cusco e as casinhas da periferia sempre com dois tourinhos no telhado, símbolo de meta alcançada. No caso, conseguir um teto.

E aí o trem segue em frente, atravessando povoados encantados e plantações semicobertas pelo gelo da madrugada. É a zona rural de Cusco e das cercanias mostrando a sua cara.

Não há necessidade de chá de coca nem de remédio para o “soroche”, mal de altitude, rumo a Machu Picchu. A cidade fica bem abaixo da altitude de Cusco – 3.400 a 3.750 metros acima do nível do mar. Como a aclimatação já foi feita, nada a temer. Mas prepare as pernas, porque elas serão mais que exigidas nas próximas horas.

O bilhete num vagão de categoria média dá direito a café da manhã: “huevos revueltos”, frutas, presunto... Os ferromoços tiram o elegante casaco azul-marinho, colocam o avental e oferecem o “desayuno”.

Enquanto os guias turísticos vão contando histórias dos incas, da construção da ferrovia, da proibição de helicópteros continuarem descendo no vale, a viagem segue, com direito a duas paradas. Uma delas no vilarejo de Chilca, no caminho inca, para a entrada e a saída de novos passageiros, incluindo “peregrinos” que se encontram nas estações com carregadores.

Momentos especiais para a compra de artesanato e fotos. Conforme o trem vai entrando no Vale Sagrado, a viagem vai se tornando mais atraente, dessas para se guardar para sempre na memória. O rio Urubamba, as quedas d’ água, as imensas rochas em meio ao leito, as pontes, as montanhas, a floresta.

Como parte do Peru está localizado também dentro da Selva Amazônica, em algumas épocas recomenda-se o uso de repelentes por conta da presença de insetos e jamaisdeve-se fazer a travessia do rio a pé, por ser habitat natural de serpentes venenosas que vivem às suas margens.

O uso de repelente – não economize – é obrigatório para quem for fazer parte do percurso a pé, pois a dor da picada é insuportável. A viagem segue o curso do rio Urubamba, penetrando cada vez mais no vale sagrado dos incas.

Para quem pode parar em uma ou outra estação, há muito para se ver entre Cusco e Machu Picchu, incluindo povoados com ruelas de pedra que misturam arquitetura pré-colombiana e espanhola, feiras de artesanato, comunidades de artesãos e camponeses dedicados ao cultivo.

Pisac, por exemplo, recebe aos domingos visitantes que se hospedagem em Cusco e vão à sua praça central para participar da maior feira de artesanato do Vale Sagrado. É uma festa de cores e tradições, que se inicia por volta das 5h30 e prossegue pela tarde, onde são oferecidos artigos como ponchos, colares e artesanato de cerâmica, assim como produtos típicos de cada região. As frutas de Quillabamba, o milho de Urubamba, entre outros.

Assim como ocorre no Brasil, mais especificamente na Bahia, o sincretismo religioso é forte no Peru. No Vale Sagrado, aos domingos, são realizadas missas em quechua, o dialeto ancestral, numa prova da idiossincrasia entre o catolicismo imposto pelos ibéricos e os cultos indígenas.

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Saiba mais

Huyana Picchu, ou Jovem Pico, é a montanha vizinha a Machu Picchu. Mas para chegar lá é preciso preparo físico excelente. A escadaria até o topo não é para qualquer um. É a mais cansativa de todo o passeio.

A Rocha Sagrada é perfeita para a meditação. Um recorte numa das pedras forma uma espécie de cadeira e reproduz o desenho da montanha em frente.

O Intihuana ou Poste de Amarrar o Sol era uma espécie de relógio solar para marcar as estações do ano.

A Praça Sagrada é cercada de templos e a Praça Central separa as principais áreas religiosas do setor residencial da cidade sagrada.

O Templo do Sol é a única construção circular, com uma impressionante rocha-altar e janela central alinhada para o Oriente.