08 de julho de 2026
Politicando

Não estou com sede!


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O modo como os escritores portugueses nos descreviam talvez classifique nosso costume de contar piadas a respeito de sua falta de inteligência como uma espécie de represália. No romance Os brilhantes do brasileiro, escrito em 1919, Camilo Castello Branco assim se refere ao personagem central denominado Hermenegildo Fialho Barrosas. Um brasileiro graúdo e dos mais gordos da cidade... E acrescenta. Os brasileiros daquele tempo eram os usufrutuários mais ou menos exclusivos das peregrinas burguesas do Porto.

Quanto à religiosidade, ele coloca essas palavras na boca do herói: - A missa não é moda em minha terra. Você bem sabe que a gente lá no Brasil perde o pelo.

Em seu primeiro encontro com a futura esposa, o brasileiro diz: - Faça favor de desculpar este desarranjo, minha senhora! - ao se referir às “moitas verdes acalcanhadas, onde os pés jubilavam em pleno desafogo dos joanetes”. E, no diálogo com ela , o herói diz “- O que eu quero em minha casa são pessoas amigas, que não obrigam a “intequetas” nem outras aquelas...”

Além disso , o herói brasileiro “ronca” , é chamado de “roliço devasso”, e ao morrer é descrito como “algumas arrobas de carne em putrefação, onde estivera uma alma criada à imagem e semelhança de Deus, pois a tolerância divina permite semelhantes blasfêmias”. Em compensação, Eça de Queiroz na obra que faz a cobertura da viagem de nosso Imperador Pedro II a Portugal, chamada Uma campanha alegre, diz que Lisboa “ é uma cidade burguesa que gostaria de parecer-se com uma meretriz, caso pudesse acostumar-se a lavar os dentes”.

- Mas então os portugueses não são escrupulosos no asseio? - pergunta. E o próprio Eça responde: - Outrora, quando os criados inexperientes em hotéis viam chegar um viajante português, traziam-lhe, como a todos, uma tina cheia de água fresca, para banhar-se. E o português invariavelmente respondia: - Obrigado! Não estou com sede!

Contada por Rui Bertoti