“Plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro’. Fiz tudo isto e acreditava, assim, ter cumprido o destino dos homens. Mas às 5h12 da manhã do dia 8 de dezembro de 2002, acrescentaste, com a imensa sabedoria de quem não aprendeu nada, mais um rol de tarefas à minha agenda, e todo o poder do mundo condensou-se em 2.685 gramas e 49 centímetros.”
É assim, com grande emoção, que o pediatra e professor universitário Leonardo Marcos Posternak, 55 anos, publica - literalmente - a chegada de sua neta Luana na obra “Livro dos Avós: Na casa dos avós é sempre domingo?”, lançado recentemente pela editora Artemeios.
Escrito em parceria com a psicoterapeuta Lídia Aratangy, o livro retrata o papel dos avós na família e as relações entre pais, filhos e netos na sociedade atual, apresentando, de forma clara e descontraída, exemplos da vida real. Entre eles, as experiências pessoais e profissionais que os autores compartilham com o público em temas como: a arte de cuidar dos netos, para que serve a família nos dias de hoje e como diminuir conflitos entre as gerações e avós pós-modernos.
“Este é o século dos avós”, afirma Posternak em entrevista concedida ao Jornal da Cidade. De acordo com ele, a função dos avós na sociedade atual é relativamente nova. Ele aponta que, além da maior expectativa de vida, a imagem dos avós não está mais associada à dependência. “O avô moderno é ativo, trabalha arduamente e cuida de seu corpo”, diz. “Mas ainda continuamos ‘babando’ diante de nossos netos”, ressalta.
Assim como centenas de avós, Posternak se inclui neste exemplo. Pai de dois filhos, ele se tornou avô recentemente de Luana. É autor dos livros “E Agora, o que Fazer? - A difícil arte de criar os filhos”, de 1998, e “O Direito à Verdade – Cartas para uma criança”, de 2002, ganhador do Prêmio Jabuti 2003. Médico pediatra no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, ele é professor de saúde física e psíquica na primeira infância na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, presidente do Instituto da Família e membro do departamento de higiene mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo e da Associação de Estudos para o Bebê.
Dono de um extenso currículo profissional, ele se define como um recém-empossado avô e procura, por intermédio do livro, compartilhar suas dúvidas e experiências nessa arte. Confira os melhores trechos a seguir.
Jornal da Cidade - Por que o senhor aponta no livro que este é o século dos avós?
Leonardo Posternak – Porque, em geral, nos tornamos avós mais jovens e vivemos mais. Nós avós estamos em contato com nossos netos muito mais do que antigamente. Não tenho estatísticas brasileiras, mas nos Estados Unidos 50% das pessoas se tornam avós entre 49 anos e 53 anos. É cada vez mais comum crianças conviverem com seus quatro avós ao longo de toda infância e alguns até conhecem seus bisavós. De fato, este é o século dos avós.
JC - Acompanhando a pergunta-título da obra, na casa dos avós é sempre domingo? Por quê?
Posternak - Fazendo um jogo de palavras, diria que na casa dos avós se torna domingo quando os netos estão presentes. É possível que as crianças façam ou obtenham coisas que na casa dos pais não conseguem, porém, é preciso ficar claro que as regras são diferentes em cada lugar. Não pode acontecer uma perigosa “sedução” infantil de forma que as avós funcionem como “fadas boazinhas” em comparação com os pais “carrascos”. Isto não pode ocorrer de jeito nenhum. Os avós não devem tentar mudar as normas de funcionamento na casa dos filhos e netos.
JC - Os avós de hoje não são como antigamente. Quais foram as principais mudanças?
Posternak - Eu diria que as famílias de hoje são diferentes das famílias de antigamente. Hoje as crianças têm menos contato com a família, não existem os almoços do domingo – no passado eles aconteciam todos os domingos na casa dos avós. Isto nem está certo, nem errado, é simplesmente diferente. A família aglutinada em volta da autoridade paterna não é mais comum, e não só para o almoço “domingueiro”. No começo do século passado, o nascimento de netos era um “fim de linha”. Para as avós isto significava sentar na porta de casa ou na cadeira de balanço, com agulhas de crochê, aguardando a visita dos filhos e netos. Hoje, cada membro da família tem suas preferências e elas são respeitadas. Mas também os avós têm compromissos laborais, como visitar ou ser visitados pelos netos.
JC - Como são os avós modernos?
Posternak - O avô moderno - ou será pós-moderno? - é ativo, trabalha arduamente, cuida de seu corpo, faz ginástica, dança, e, muitas vezes, se casa de novo. Embora ele seja diferente do tempo de nossos avós, continuamos “babando” diante nossos netos, em um misto de palhaço e filósofo que pode até afirmar, sem os menor senso de realidade, que o primeiro rabisco deles significa o surgimento de um novo Picasso.
JC – A obra traz exemplos reais de situações familiares. A relação do senhor com filhos e netos também é retratada? De que forma?
Posternak - Como consta na carta que escrevi para minha neta, que está hoje com 3 anos e 7 meses, assumir o papel de avô significa um árduo trabalho, uma vez que partimos de um modelo pouco delineado. Esta função é feita de retalhos, lembranças e de incertezas. Talvez se trate de nos deixar conduzir pela sabedoria dos netos para ir aprendendo a ser avós.
JC - No livro, um dos capítulos mostra que as pessoas aprendem a ser avós. Qual é a função deles na educação dos filhos e netos?
Posternak - Essa função é nitidamente dos pais de nossos netos, o que podemos fazer é trocar idéias a respeito disto, sem impor modelos. Devemos aceitar e apoiar as tentativas dos mais jovens para educar, ainda que possam errar, assim como nós, seguramente, erramos um dia.
JC - Qual são os principais desafios?
Posternak - O maior desafio dos avós talvez seja evitar confrontos desgastantes e construir uma convivência saudável entre as três gerações da família. Isto começa já na construção de um vínculo saudável com nossos filhos quando eles são bebês, crianças e adolescentes. Penso que existe uma situação em que eu aprendi ao me tornar pai. E penso que também existe uma situação que aprendi ao me tornar avô. Quando nossos filhos viram pais, as nossas relações e conversas deixam de ser entre pais e filhos para se tornarem relações de pais para pais.
JC - Como lidar com filhos e netos para evitar confrontos inúteis e diminuir conflitos inevitáveis?
Posternak - Justamente não deixando os netos fazerem tudo o que lhes vêm à cabeça. Não podemos assumir uma postura para continuar sendo os “bonzinhos”. E por várias razões. Primeiro, pelos perigos físicos que isto traz e segundo, porque não estamos fazendo absolutamente nada para construir cidadãos responsáveis e com capacidade de lidar com as frustrações.
JC – Como estabelecer uma convivência saudável com filhos e netos?
Posternak – Além da surpreendente emoção pelo envolvimento e a transformação que ocorre em um instante preciso, devido a um ato que - temos que ter isto em mente sempre - não é nosso, e sim de nossos filhos, as dicas são as mesmas para os avós de primeira, segunda ou o número de viagens que houverem nesta comovente alquimia.
JC - Como derrubar mitos de que “avó é mãe com açúcar” ou de que “na casa dos avós pode tudo”?
Posternak – É preciso lembrar que os netos podem fazer tudo quando não fazem isto à revelia dos pais ou sem o seu consentimento. É preciso trocar informações e compartilhar outras, principalmente se os avós cuidam dos netos enquanto os pais trabalham. Fazer alianças é fundamental.
JC – Os avós podem ter uma ligação direta com a escola ou com o pediatra dos netos?
Posternak - Isto vai depender dos avós, dos pais, das crianças e das circunstâncias. Não existe uma família igual à outra. O que pode ser bom para uma, pode ser ruim para outra. Tudo deve ser bem avaliado e decidido pelos pais da criança.
JC - O livro também trata das perdas sofridas pelos avós, como o afastamento dos filhos e mudanças na intimidade do casal. Como lidar com estes aspectos?
Posternak - Se o casal constrói uma boa relação a dois, antes e durante a educação dos filhos, sem usá-los como “tampão” ou “cola” de um vínculo conflituoso, após o baque da saída dos filhos ele poderá reconquistar os prazeres a dois, com viagens, novos amigos e também novos prazeres. Caso contrário, isto dependerá dos netos, como já, no passado, dependeu dos filhos.
JC - E como é se tornar avó em uma idade na qual se pode ser pai?
Posternak - Tornar-se avô não é um fato cronológico. Não depende de nós a decisão de conquistar este título. Eu, aos 55 anos de idade, havia plantado uma árvore, escrito dois livros e era pai de dois filhos. Acreditava, assim, ter cumprido o destino dos homens. Ledo engano! No dia 8 de dezembro de 2002, exatamente às 5h12, Luana condensou, em 2.685 gramas e 49 centímetros, todo o poder do mundo e acrescentou mais um rol de tarefas à minha agenda.