Quem diz que vizinho não é parte da família não deve ter tido boas experiências ainda. Mesmo sem parentesco de sangue, em muitos casos, eles são chamados de “irmão”, “mãe”, “irmã”, “filha”, entre outras denominações. Não é raro que pessoas que mudaram de uma cidade para outra supram a falta de familiares convivendo com os vizinhos. O Dia do Vizinho, comemorado hoje, foi criado pela poetisa Cora Coralina há mais de 30 anos, na mesma data em que ela fazia aniversário, tamanha a adoração que tinha pela vizinhança.
A “tradição” de gostar dos vizinhos como se fossem da família passou de geração em geração naquela família. A nora de Coralina, Nize Garcia Bretas, moradora do Jardim Brasil, emociona-se ao falar das duas amigas que moram na mesma rua que ela.
Quando chegou a Bauru há 37 anos, junto com o marido (filho de Coralina), Cantídio Bretas Filho, Nize não tinha familiares na cidade. “A Gerlena foi a primeira pessoa com quem conversei. Ela era a única moradora da quadra, na época. Ficamos grandes amigas desde então”, refere-se à até hoje vizinha Gerlena Rodrigues Fontana.
A amizade ultrapassou décadas e o carinho também. “Ela me ajudou em muitos momentos e nunca vou me esquecer disso”, emociona-se. Para completar o trio de amigas, Maria Odélia Francesquini também só tem boas lembranças. “Somos tão chegadas que até temos as chaves das casas uma da outra. Em caso de emergência, estamos sempre prontas a ajudar”, orgulha-se.
Gerlena lembra-se de uma vez que chegou à ousadia de tirar o vaso de flores das mãos de uma mulher que roubou-o da frente da casa da Nize. “Na hora, fiquei com muita coragem e fui atrás da mulher. Não deixei ela fazer isso com a minha vizinha”, conta.
Mas, em dias de tanta correria, a amizade entre vizinhos ainda existe? Para Nize, as coisas não são mais como antigamente. “Colocávamos as cadeiras na rua para conversar. Hoje, as pessoas correm muito, não têm tempo”, opina. No entanto, para Gerlena, tudo pode continuar como antigamente. “Depende de cada um, não é difícil. A boa vizinhança é você quem faz”, ensina.
Em muitos momentos, Nize lembra-se da sogra. “Coralina falava dos vizinhos com um carinho extraordinário. Ela era uma pessoa iluminada e com espírito jovem, por isso atraía todas as pessoas”, conta. Também com carisma, Nize fez amigos pela vizinhança. Agora, faz planos para mudar-se de Bauru. “Vou sentir muita falta dos meus vizinhos, mas com certeza farei novos amigos”, alegra-se.
Para o morador do Alto do Paraíso Nilson Oliveira Silva, o bom vizinho é aquele que colabora com os outros e respeita o jeito de ser de cada um. “Sempre tem aquele mais quieto. Mas não importa. A gente vai chegando aos poucos e faz amizade”, dá a receita.
Ajudar é com ele mesmo: sempre está consertando objetos dos vizinhos. Faz tudo de coração, sem cobrar nada. Recentemente, Silva construiu um calço de madeira para o carrinho de sorvete do vizinho. “O carrinho vai ficar em um lugar em desnível e a madeira vai equilibrá-lo”, explica.
O morador também está sempre às ordens dos vizinhos quando a resistência elétrica do chuveiro queima ou a torneira tem vazamento, por exemplo. “Sempre que posso ajudo meus vizinhos e, quando preciso, eles também colaboram comigo. É uma troca”, justifica Silva.
Aprendendo com o vizinho, Braz Manoel Antônio segue os mesmos passos. “Estou há sete anos no bairro e tenho ótimos vizinhos. Quando posso, ajudo o Nilson em algum trabalho”, conta.
Ele lembra-se de quando foi morar no Alto do Paraíso e como a idéia de ajudar os vizinhos surgiu. “Conheci o Nilson logo que saí na porta da minha casa. A gente colocava as cadeiras na rua e ficava conversando. Um dia, tivemos a idéia de ajudar os outros e colocamos em prática”, conta.
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Mudança
Depois que o marido de Nize Bretas, Cantídio Bretas Filho, faleceu, no ano passado, ela sentiu-se um pouco só e passou algumas semanas refletindo. Um dia, teve a idéia de mudar-se para Balneário Camburiú, em Santa Catarina. “Eu e meu marido costumávamos passear naquela cidade. O ar é agradável e a cidade é bela”, diz.
Com os filhos já criados, ela resolveu concretizar o sonho. “Meus filhos gostam de passear na cidade e sei que lá ficarei feliz”, planeja.
Nize mora há 37 anos em Bauru, mas pretende deixar a cidade no próximo mês. “Na semana do meu aniversário (dia 13) vou me despedir dos amigos e ir para Balneário”, diz.
Nize e Cantídio foram casados por 64 anos. Ele foi coronel do Exército e chefiou, por muitos anos, a 6.ª Circunscrição do Serviço Militar (CSM) de Bauru.