09 de julho de 2026
Articulistas

A mentira e o voto


| Tempo de leitura: 3 min

A mentira começa com o fato de se chamar o horário de propaganda eleitoral de “gratuito”. Poucos sabem que custa mais de 4 bilhões de reais anualmente em renúncia fiscal concedida pelo governo à radiodifusão, na forma de isenção de impostos. Um desperdício pelo pouco ou nada que se ouve de aproveitável para o momento tão grave que vive a nação. Repete-se a verborragia de sempre. Apenas uma sucessão de frases surradas e idéias genéricas sobre os mais variados temas – da corrupção à segurança, do combate à pobreza à construção de hospitais, escolas, estradas, e por aí vai... O espetáculo pobre e cansativo já foi considerado pelo Times de “o mais chato da TV mundial”.

Mesmo fora do horário eleitoral, os políticos mentem tanto que chegam a acreditar na própria mentira. Nietzsche dizia que mentir para os outros é exceção. A principal mentira é aquela que a pessoa conta para si mesma. É o caso do Lula, na Globo, dizer que jamais deveu dinheiro ao PT. O seu amigo Paulo Okamoto pagou os R$ 29 mil emprestados ao Lula pelo partido “porque quis”. Resta saber se o amigo e beneficiado com o alto cargo de presidente do Sebrae (R$ 30 mil por mês, fora as verbas de representação, carro, motorista, etc.) vai também pagar a multa de R$ 900 mil a que Lula acaba de ser condenado por propaganda eleitoral antecipada. Em dezembro do ano passado o presidente fez circular um tablóide tecendo loas a si mesmo, às custas de patrocinadores, coincidentemente, empreiteiros do Governo. Lula disse que afastou José Dirceu e Antonio Palocci. Se comparecesse ao debate da TV Bandeirantes, certamente não faltaria a pergunta: “E por que demorou tanto?” Manteve-os enquanto pôde. Ao primeiro chamou de “meu querido” e, ao segundo, de “nosso irmão”. Outra pergunta ao candidato à reeleição seria: “Quem o traiu?” Com 1.200 funcionários trabalhando no seu gabinete, seria impossível identificar - resposta óbvia. Lula ainda repete os termos da entrevista concedida em Paris quando atribuiu a crise ética a um “reflexo de todo sistema político e não apenas de alguns partidos ou de determinadas pessoas”. Assim falou Zaratustra... A mentira é tanta que não há porque nela não acreditar. Socializaram a culpa. Aplaudem Lula os seus novos companheiros, Jader Barbalho – eleito pelos eleitores do Pasquim como o mais corrupto político brasileiro, à frente de Maluf; Ney Suassuna – o rei das ambulâncias; Newton Cardoso – “parceiro de cachacinha e charuto”, segundo ele mesmo; Sarney, Quércia, Renan Calheiros e... Maluf.

Leio o que disse o senador João Alberto, eleito pelo Maranhão, presidente do Conselho de Ética (!) do Senado: “Não vou acusar os três senadores de sanguessugas baseado em denúncias de Luiz Antonio Vedoim... Afinal, trata-se de um bandido. E entre um bandido e meus colegas, acredito na versão deles”.

A realidade política e eleitoral brasileira deste ano, está gravemente marcada por episódios que humilham a cidadania. O desperdício do espaço e do tempo do horário eleitoral representa uma oportunidade perdida, que favorece os que têm algo a esconder ou não têm nada a mostrar. Desse cenário vazio de propostas e incapaz de provocar o interesse popular, afloram importantes questões. Até quando os cidadãos estarão sujeitos à prática pouco democrática do deve de votar mesmo quando não queiram fazê-lo? O voto obrigatório acaba de ser uma fonte de distorções, na medida em que os eleitores pouco conscientes da responsabilidade cívica preferem anulá-lo ou deixá-lo em branco, quando não o utilizam como uma moeda de troca para favores de caráter pessoal. Esta á uma das razões pelas quais a reforma política de que o país tanto precisa deve instituir o voto facultativo como uma das maneiras mais eficazes para produzir o saneamento das nossas práticas eleitorais.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC