09 de julho de 2026
Regional

Aqüífero Guarani é mistério que precisa ser desvendado

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 5 min

Botucatu - A grandiosidade do Aqüífero Guarani tem sido bastante divulgada, principalmente devido à preocupação iminente da falta d’água no planeta. Porém o conhecimento real sobre o gigantesco reservatório de água doce é proporcional ao seu tamanho estimado. São águas subterrâneas escondidas em uma rocha que atua como uma espécie de esponja, armazenando água.

O Guarani está presente em quatro países da América do Sul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) e ocupa 1,2 milhão de quilômetros quadrados, sendo que 70% está presente em território brasileiro. No Brasil, o reservatório banha o subsolo de oito Estados.

Ao se superestimar o potencial do Aqüífero Guarani, com avaliações imediatistas, corre-se riscos de investimentos equivocados. O pesquisador do Ricardo Hirata, do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (IGc-USP), utilizou um exemplo de projeto mal-sucedido com investimentos vultosos feito em um poço no município de Presidente Prudente. Lá, literalmente, foram jogados R$ 1,5 milhão em um buraco.

A água que aflorou mostrou-se imprópria para o uso devido a concentrações extremas de flúor. Conforme Hirata, esse problema já é conhecido há algum tempo. “Sabemos de algumas dessas áreas, mas não sabemos de todos. Por isso, a necessidade de se investir em pesquisa”, alerta.

Ele comenta que o flúor em doses corretas é muito bom para proteção do esmalte dos dentes. Entretanto, a presença em excesso inviabiliza o uso da água. No caso de Prudente, a taxa de flúor foi de 13 miligramas a cada litro d’água, dosagem muito além. “O poço era muito grande e profundo com grande investimento”, detalha.

Hirata lembra que o Aqüífero Guarani já está trazendo benefícios para as comunidades por sua exploração. Porém a grande preocupação do pesquisador é saber até onde vai o potencial hídrico do manancial. Segundo Hirata, é fundamental e estratégico que os quatro países invistam em pesquisas para se conhecer a fundo o Aqüífero Guarani.

Gestores

Hirata foi um dos pesquisadores participantes da “Jornada Estadual Aqüífero Guarani”, realizada nas últimas quarta, quinta e sexta-feira em Botucatu e que integra uma das várias etapas de um circuito de eventos do Projeto de Proteção Ambiental e Desenvolvimento Sustentável do Aqüífero Guarani.

Ao discursar na abertura do evento, o prefeito de Botucatu, Antonio Mário de Paula Ferreira Ielo (PT), acabou por indicar uma das grandes deficiências das cidades e que são risco iminente ao aqüífero.

“Temos poucos instrumentos. Porém temos tecnologia para asfaltar ruas e instalar rede de água e esgoto, cobradas pela população. Mas paramos por aí”, avalia. Segundo Ielo, a outra grande dúvida é com a interferência em áreas de recarga do aqüífero presentes nos municípios de Botucatu e São Manuel.

Ele ressaltou que se preocupa com os caminhos trilhados pelos gestores municipais (prefeituras) de Itatinga, Pardinho e Botucatu, integrantes do Consórcio de Estudos Recuperação e Desenvolvimento Sustentável da Bacia Hidrográfica do Rio Pardo (Cedepar). Ielo assumiu no final do mês passado a presidência do Cedepar, antes presidido pelo prefeito de Pardinho, Francisco Rocha. Botucatu, Itatinga e Pardinho integram a Bacia Hidrográfica do Rio Pardo.

O consórcio tem grande responsabilidade na recuperação florestal de áreas de preservação permanente do Rio Pardo, principal manancial fornecedor de água para cidade de Botucatu. Suas principais nascentes estão localizadas nas cidades de Pardinho e Itatinga.

O Cedepar tem como obrigação planejar, adotar e executar projetos e medidas conjuntas destinadas a promover e melhorar as condições de saneamento e uso das águas da bacia hidrográfica do Rio Pardo e das sub-bacias. Ainda é atribuição do consórcio fiscalizar e controlar atividades que interfiram na qualidade socioambiental do território consorciado.

A “Jornada Estadual Aqüífero Guarani” é uma promoção do Comitê de Bacias Hidrográficas, Conselho Estadual de Recursos Hídricos, com apoio e organização da Prefeitura de Botucatu, Governo do Estado de São Paulo e Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE).

____________________

Proteção

No último dia da “Jornada Estadual Aqüífero Guarani”, realizada em Botucatu e encerrada na última sexta-feira, foram discutidas formas de proteger o Aqüífero Guarani. O coordenador de operação do Departamento de Águas de Araraquara, Júlio César Perroni, defendeu a proposta de se implantar ações em conjunto com os diversos níveis de gestão, como União, Estado, município, sociedade e usuários.

“Já temos uma legislação de Recursos Hídricos bem estabelecida. Precisamos, além de tudo, nos preocupar com ações para conhecer mais o Aqüífero Guarani. Precisamos conhecer a oferta e demanda de recursos hídricos para planejar e definir um plano de operação”, explicou o coordenador.

Para colocar essas propostas em ação, Perroni acredita que será fundamental a participação popular no conhecimento do Aqüífero Guarani e a articulação do Plano Diretor dos municípios com o Plano de Bacias.

“Há uma necessidade de informar a comunidade do que é o Aqüífero Guarani e sua importância para as gerações futuras. Mas para isso defendo que seja feito um projeto de comunicação com linguagem simples para que todos possam compreender. Essa linguagem de fácil acesso tem que fazer parte da estratégia de gestão para que todos possam entender e futuramente preservar”, finalizou o coordenador.

O evento contou com a presença de ambientalistas, advogados, pesquisadores, estudantes, autoridades da esfera municipal, estadual e da União, e representantes de 16 comitês de bacias hidrográficas do Estado de São Paulo.

____________________

O que é

O Aqüífero Guarani é um reservatório de águas subterrâneas estimado em 1,2 milhão de quilômetros quadrados. A maior parte do reservatório se estende pelos territórios do Brasil (840 mil quilômetros quadrados), seguido dos territórios da Argentina (355 mil quilômetros quadrados), além do Uruguai e Paraguai, ambos com 58,5 mil quilômetros quadrados de reserva subterrânea de água.

Este manancial dispõe de um volume aproveitável de água da ordem de 40 quilômetros cúbicos por ano. O volume da água é 30 vezes superior à demanda pelo líquido para uma população de 20 milhões de habitantes.