09 de julho de 2026
Regional

Reservatório de água é estratégico para a América do Sul

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 3 min

Para efeito de políticas de exploração sustentável, os recursos hídricos do Aquífero Guarani caminham com os interesses políticos dos países fundadores do bloco econômico do Cone Sul (Mercosul), Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Daí ser estratégico para os ambientalistas e pesquisadores uma proposta de internacionalização de atuações conjuntas.

O Projeto de Proteção Ambiental e Desenvolvimento Sustentável do Aqüífero Guarani é gerido por iniciativa conjunta dos quatro países, do Fundo para o Meio Ambiente Mundial e da Organização dos Estados Americanos (OEA). Os esforços seguem a proposta de elaboração de estudos para a implantação coordenada de uma estrutura técnica e institucional para a proteção e gestão do aqüífero.

O pesquisador do Instituto de Geociências (IGc-USP), Ricardo Hirata, explica que muito pouco foi investido, até agora, em estudos para se decifrar os “códigos” do Aqüífero Guarani.

Enquanto isso, algumas situações envolvendo os recursos do manancial apontam até para atos isolados como o de um político da América do Sul que ressuscitou a tática de uma suposta conspiração que pretenderia entregar ao capital internacional o Aqüífero Guarani. Hirata explica que, nas condições tecnológicas atuais, seria mais fácil a técnica de dessalinização das águas do mar.

Hirata avalia que, aparentemente, o aqüífero é um excelente manancial para o Estado de São Paulo, muito confiável e apresenta alguns problemas localizados e que são naturais. “O aqüífero é um grande mistério quando vamos querer conhecer mais dele nos outros três países”, avalia.

Afloramento

O pesquisador do Instituto de Geociências da Unicamp, Celso Dal Ré Carneiro, fez uma excursão, na última quinta-feira, nas áreas de afloramento do Aqüífero Guarani presentes em Botucatu. Ele faz um alerta de que há uma abundância de informações sobre o aqüífero e acessíveis por vários meios, porém difíceis se serem traduzidas para a população.

“A gente diz que está disponível na internet, em jornais, revistas. Mas a grande dificuldade é como as pessoas conseguem filtrar essa carga de informações e extrair alguns conceitos de como preservar um aqüífero, por exemplo. Até é difícil de entender o que é um aqüífero”, alerta.

A Jornada Aqüifero Guarani se propôs a ir a campo, mostrar aquilo que não está aparente e rochas que estão expostas mas que passam despercebidas. Em palestras com animações gráficas ou caminhando por trilhas, muitos dos participantes puderam ser iniciados numa nova dimensão. Carneiro discutiu passo-a-passso as idéias básica de que no subterrâneo existem rochas e dentro das rochas existem espaços vazios (poros) que em alguns lugares, como em Botucatu, são preenchidos por água.

Essa água está numa complexa trama em que pode se comunicar e pode percorrer as rochas. Em alguns lugares, a água pode ser extraída. Conforme Carneiro, significa um salto grande discutir as maneiras de proteger as áreas de recarga e de afloramento do aqüífero.

Atualmente, uma das propostas em discussão proíbe a agricultura que usa fertilizantes e pesticidas, como na cana-de-açúcar, nos locais de afloramentos, onde os depósitos de água se encontram próximos da superfície, como ocorre na região de Botucatu. Carneiro avalia que a criação, anos atrás, da Área de Proteção Ambiental (APA) Corumbataí representou um grande avanço. Mas agora depende de medidas de gestão que avaliem o impacto de instalação de indústrias e a exploração agroindustrial. Ele comenta que defensivos agrícolas (agrotóxicos) podem contaminar irreversivelmente o aqüífero. Carneiro argumenta que um produto químico no subsolo demora centenas de anos para se decompor. “Ele pode circular e contaminar um aqüífero. Daí se torna muito mais caro recuperar este aqüífero no futuro. Isso se as técnicas forem possíveis de serem aplicadas”, salienta. Como geólogo, ele lembra que a contaminação calculada no tempo geológico não representa um problema, pois a natureza leva bilhões de anos para modificar o espaço.

Entretanto, para os interesses humanos, segundo Carneiro, a contaminação é crítica. “As sociedades precisam desses recursos para os próximos 100 anos, 500 anos. A natureza sabe como reciclar e não depende de nós. Nós é que dependemos dela”, finaliza.