09 de julho de 2026
Bairros

Moradores reclamam de piçarra nas ruas

Luiz Galano
| Tempo de leitura: 4 min

Quando algum carro passa, uma poeira fininha e esbranquiçada se levanta e invade as casas dos moradores de seis ruas do Jardim Rosas do Sul, na altura da quadra 20 da avenida Cruzeiro do Sul. Parece até talco, mas na verdade é pó de piçarra – um tipo de pedra utilizada na pavimentação de estradas, geralmente no meio agropecuário. O problema não se restringe a sujeira no quintal e interior das casas, mas também às vias respiratórias das crianças do bairro, que vêm, há mais de um ano, sofrendo sucessivos problemas de saúde.

Moradora do Rosas do Sul desde 2004, a jornalista Ester Miranda se cansou de levar suas gêmeas de 2 anos ao médico para descobrir qual seria a causa dos sucessivos problemas das garotas, até descobrir que o vilão era a poeira vinda da rua. “Elas sempre sofreram com gripes constantes. O médico levantou a hipótese de reação alérgica ao leite. Depois disso passei a comprar leite de soja e dar vitaminas contra alergia. Mas nada adiantou”, afirma.

A saga continuou. “Pouco tempo depois, uma delas contraiu rotavírus, enquanto a outra, pneumonia. Tratamos as duas. Depois de uma semana que a pneumonia sarou, começou a dor de garganta. A outra melhorou da virose e ficou com pneumonia”, relata a mãe, que por experiência própria, comprovou que o problema não era o leite. “Depois de ter tentado de tudo, conversei com um geógrafo, que me explicou que a poeira da piçarra poderia ser a causa das sucessivas crises”, diz.

Ester conta que os problemas se agravaram a partir de maio desse ano. “Tudo se acentuou depois do início do período de estiagem. Na semana passada, por exemplo, as duas estavam com virose e iniciaram tratamento. Só que não deu tempo de terminar, porque tive que iniciar outro contra pneumonia novamente, nesse meio tempo”, conta Ester, que afirma também usar, periodicamente, produtos contra inflamações constantes na garganta. De acordo com a mãe, os gastos somente com remédio ultrapassam R$ 1,5 mil, em pouco mais de uma ano e meio.

A dona de casa Fátima Cortezini Gomes também culpa a poeira da piçarra pelos problemas de saúde da filha e do neto de 3 anos. “Quando a rua era só de terra era bem melhor. Depois que eles colocaram isso aqui (piçarra) começaram as crises. Hoje, meu neto tem que fazer inalação três vezes ao dia e minha filha gasta horrores com remédios, inclusive para ela”, conta a mulher, que diz viver com as janelas e portas fechadas para evitar a entrada da poeira.

Outra moradora do Rosas do Sul, a dona de casa Keila Patrícia Medeiros de Camardo irá tomar uma atitude extrema para acabar com os problemas de saúde de seu filho de apenas 6 meses. “É infecção atrás de infecção. Fui ao médico hoje (ontem). Ele disse que meu filho está com rinosinusite e que se eu não me mudar daqui, isso não vai melhorar. A partir de amanhã já estou procurando outra casa”, diz a moradora, que afirma gastar em média R$ 100,00 por mês com remédios.

Abaixo-assinado

Os moradores do Jardim Rosas do Sul decidiram agir ao invés de esperar. Ester Miranda decidiu percorrer todas as casas e montar um abaixo-assinado, que será protocolado e entregue amanhã na Secretaria de Obras do município. Nele os residentes no bairro solicitam que as ruas sejam asfaltadas ou que seja retirada a camada, de cerca de cinco centímetros, de piçarra.

Segundo a assessoria de imprensa da prefeitura, o material usado para o tratamento da terra das ruas do Jardim Rosas do Sul foi uma alternativa escolhida pelo antigo responsável pelo loteamento – que incialmente seria um condomínio fechado - para amenizar problemas de erosão nas antigas ruas de terra. No entanto, confirmou que atualmente a responsabilidade pelo asfaltamento das vias é da prefeitura, mas que ainda não existe previsão para que elas sejam pavimentadas.

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Argila

De acordo com o geógrafo José Carlos Rodrigues Rocha, a piçarra é um tipo de argila amplamente utilizada para a fabricação de telhas e vasos. Nesse caso não solta resíduos porque houve um processo de queima, num forno industrial, que une as moléculas. No caso da pavimentação, como não houve a compactação dessa argila, o solo resseca e a poeira se levanta.

“A piçarra se assemelha ao saibro das quadras de tênis. Quando o tempo está muito seco, formam um pó muito mais fino do que areia”, afirma o geógrafo. Em pesquisas na Internet, a reportagem do JC constatou que a piçarra é amplamente utilizada em estradas do meio agropecuário em geral, como em usinas, destilarias, fazendas e até sítios.