08 de julho de 2026
Articulistas

Seu nome é Enéas


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O horário eleitoral gratuito está de volta -e, com ele, Enéas Carneiro - o estridente. O líder do Prona é candidato à reeleição. Em 2002, foi eleito deputado federal com pouco menos de 1,6 milhão de votos. É evidente que aquela votação deve ser atribuída ao desejo de parte da população de manifestar sua desconfiança na classe política. O problema é que certos tipos de protestos acabam nos custando caro, muito caro. Duvido que ele venha a ter a mesma votação. Nem sei se será reeleito. A se julgar pelo que fez na Câmara Federal, penso que não. Sua vocação para o barulho inconseqüente não serviu para lhe tirar do baixo clero, meio em que vive sem sobressaltos.

Em 2002, Enéas recebeu votos suficientes para eleger outros cinco deputados pelo Prona. Alguns nem de São Paulo eram. Um ano antes das eleições, eles transferiram seu domicílio eleitoral para cá, a fim de dar curso à estratégia do ex-barbudo. Um deles foi eleito com 275 - isto mesmo: 275 - votos. Outro, com 382. O terceiro, com 484. O quarto, com 673. E o quinto recebeu o apoio de 18.417 eleitores. Não conseguiria, num partido de fato, se eleger vereador numa cidade média.

É evidente que a quantidade de votos recebidos não confere aval de boa conduta a quem quer que seja. Em 2002, depois de Enéas, o deputado federal mais votado pelo Estado de São Paulo foi aquele mesmo, que foi cassado sob a acusação de chefiar a quadrilha dos mensaleiros: José Dirceu, do PT, “ex-primeiro-ministro” de Lula da Silva, o alienado. Mas voltemos à turma do Enéas. Cuja trupe sempre apoiou Lula da Silva. Tão logo tomaram posse, em 2003, quatro dos cinco deputados “eleitos” por Enéas trataram de se bandear para partidos da base governista - três foram para o PP, de Paulo Maluf; um para o PL, de Valdemar Costa Neto, que teve que renunciar dois anos depois por conta do recebimento de mesadas e pagamentos indevidos. Nem é preciso ser esperto para imaginar as razões que levaram os quatro a abandonar o “líder”.

O que parte dos eleitores não sabia – e talvez ainda ignore – é que o seu protesto contribuiu para levar quatro sanguessugas para o Congresso Nacional. Dos cinco que foram eleitos em função dos votos dados a Enéas Carneiro, quatro pertencem à “máfia das ambulâncias”. Os valores das comissões por eles recebidas são variáveis. Fatos como estes demonstram o quão absurdo é o nosso sistema político-eleitoral. Isso, no entanto, não exime os cidadãos de sua responsabilidade. Quem vota em “cacareco” leva, de contrapeso, sanguessugas. Depois, não adianta reclamar.

O autor, Milton Flávio - PSDB, foi vice-líder do governo na Assembléia Legislativa de São Paulo, durante a gestão do governador Geraldo Alckmin, e-mail epmiltonflavio@yahoo.com.br