Não é novidade que, com mão-de-obra abundante e barata e preços competitivos, a China vem, nos últimos anos, fincando suas garras de tigre asiático nos mais diversos setores comerciais brasileiros. O Brasil, por sua vez, vende aos chineses basicamente commodities, produtos sem valor agregado. Para que uma nova realidade se instale no País, o Departamento de Ação Regional (Depar) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) em Bauru cobra a mudança da política industrial adotada pelo governo.
Para o titular do Depar, empresário José Luiz Miranda Simonelli, a relação comercial Brasil-China sempre foi extremamente desequilibrada. Dados do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp/SP mostram que, de agosto de 2005 a julho deste ano, 53% das exportações brasileiras para a China - ou US$ 3,004 bilhões - foram em produtos agrícolas.
Do total exportado pelo Brasil em minério no mesmo período, 64% do volume também foi direcionado ao dragão vermelho - ou US$ 2,497 bilhões. Em produtos industrializados, apenas 17% do total exportado foi para a China, o que corresponde a US$ 1,94 bilhões. Em contrapartida, de agosto do ano passado a julho deste ano, 53% das importações brasileiras provenientes da China foram de produtos industrializados. Em valores: US$ 6,499 bilhões.
“Nós temos uma pauta de exportações para a China muito pobre. Enquanto nós vendemos basicamente soja, minério de ferro e carne de porco, eles (os chineses) invadem o Brasil com produtos industrializados. Ou seja, o que nós (Brasil) exportamos não carrega empregos, porque são produtos básicos. Já o que nós importamos da China carrega empregos e distribuição de renda, pois são produtos industrializados”, observa.
Perdas
De acordo com Simonelli, em grandes lojas de departamentos instaladas em Bauru é fácil ver a presença dos produtos chineses. A lista vai desde calçados e confecções até brinquedos, motopeças, pneus, óculos, escovas de cabelo, peças de bicicleta, alto-falantes, guarda-chuva, entre vários outros. Os mais recentes são os pisos cerâmicos. Segundo ele, em Bauru não existem empresas que exportam para a China.
O subfaturamento também seria uma prática comum entre os chineses. Para combater tudo isso, Simonelli aponta como alternativa o investimento das empresas brasileiras em diferenciais como atendimento e prestação de serviços aos clientes. Mas isso também demanda reajustes.
Há também uma preocupação ainda mais recente que é com a possibilidade do Brasil ser excluído do Sistema Geral de Preferências (SGP), que define regras do comércio internacional. Este sistema diz que os países menos desenvolvidos (caso do Brasil) têm preferência para exportar aos mais desenvolvidos.
“Essa preferência diz respeito a tarifas menores para exportar. Mas agora, os Estados Unidos estão querendo excluir o Brasil do SGP. Se isso acontecer, o Brasil deixará de exportar US$ 400 milhões devido ao aumento das taxas de importação”, observa Simonelli.
Para a Fiesp, se isso ocorrer, as demais nações menos desenvolvidas não serão favorecidas. O que vai ocorrer é o aumento das vendas externas da China. Segundo a federação, o Brasil compete em apenas um produto com esses países, ao passo que com a China, assina a mesma pauta de exportação em quase 300 produtos.