09 de julho de 2026
Política

Cidade tem partidos menores que times

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 5 min

Três dos 28 partidos políticos registrados em Bauru não contam com quadro de filiados suficiente para sustentar a existência de um time de futebol. Alguns sequer formariam uma equipe de titulares e reservas para o futebol de salão, que exige pelo menos cinco atletas em quadra para se iniciar uma partida, ao invés dos 11 necessários para o futebol de campo. Apesar disso, as legendas têm explicações que vão do ideológico ao factual para o reduzido número de militantes inscritos na Justiça Eleitoral.

De qualquer forma, o tamanho de alguns partidos é uma das provas da necessidade de uma reforma partidária e eleitoral que reestruture o sistema político brasileiro, resguardando o espaço de quem pretende fazer da atividade pública um compromisso efetivo. Conforme as informações da consulta de filiação partidária com base nos dados referentes a junho de 2006, da Justiça Eleitoral, o recém-criado PSOL possui apenas quatro filiados registrados na cidade. A legenda não conta com comando tradicional formado por presidente, vice, secretários e tesoureiros. E nem daria. Os quatro filiados formalmente inscritos em Bauru formam o grupo de trabalho que discute as diretrizes da legenda. Entre eles, dois são candidatos a deputado.

Para um de seus coordenadores, Isaías Daiben, a situação reflete apenas uma dificuldade de calendário eleitoral que o PSOL teve de contornar neste ano. “A filiação foi feita no último dia do prazo previsto em lei. A situação em São Paulo é a mesma, isso porque como dissidentes em sua maioria do PT, os militantes não tiveram tempo para organizar a legenda. Para não ficar de fora da eleição, a saída foi fazer o registro do número mínimo, às pressas. Mas o quadro de militantes é bem maior na prática”, argumenta.

Odair Machado acha que o PSOL só figura no papel como o maior entre os nanicos na cidade. “Não faz um ano de fundação e a militância já está organizada. O PSOL existe para que o socialismo não saia da pauta. Somos ideológicos e vamos desempenhar esse papel de alternativa para o País”, registra.

Daiben ressalta que, na liderança entre os menores em tamanho, o PSOL difere de muitos outros que, em sua opinião, “são formados em churrascos e muitos servem de aluguel”. “Nós aprofundamos a ruptura com o neoliberalismo”, reforça. Tese parecida para justificar sua própria existência, mais centrada na linha operária, está o PCO que, para defender sua causa na cidade, conta com reduzidos seis membros inscritos no Cartório Eleitoral local.

Um de seus membros, Osmar Brito, confirma que a estratégia não é de ampliar filiações nesta etapa. “Em Bauru não demos ênfase na filiação e priorizamos outros espaços. Depois vamos disseminar nosso trabalho junto aos trabalhadores. Não se pode podar idéias com a limitação da vida política a poucos partidos”, lança Brito em crítica à cláusula de barreira, que pode levar à extinção dos nanicos, sobretudo os que não conseguirem votos equivalentes a pelo menos 5% do conjunto de eleitores em outubro deste ano.

Pequeno bom de voto

O terceiro menor partido de Bauru, o Prona, conta com apenas 10 filiados bauruenses e tem na médica Elizabeth Maria de Carvalho sua referência. Aliás, um formato personalista que também foi escolhido pelo líder nacional da legenda, o deputado Enéas Carneiro, agora sem barba, para montar a legenda. A figura de Enéas gerou mais de um milhão e meio de votos só em seu nome na última eleição, o que levou para o Congresso nomes desconhecidos do público e com votações que não alcançariam vagas em muitas câmaras municipais.

Mas para Elizabeth a caricatura que marcou a criação do Prona através de Enéas deve dar espaço à busca de filiados logo após a eleição. “Vou correr atrás de filiados depois. Agora fica difícil, porque temos a eleição e eu estou na rua todo dia, conversando com as pessoas. Os filiados do Prona em Bauru também são poucos porque eu escolhi entre muitos. De qualquer forma, o que vai valer são os votos que vamos ter para enfrentar a cláusula de barreira”, argumenta. Segundo os dados da Justiça Eleitoral, o PAN também figura entre os pequenos em Bauru, com 14 filiados registrados.

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Os grandes

Os registros de número de filiados por Bauru aponta o PP, comandado pelo vereador Paulo Madureira, como o maior entre os mais estruturados, com 3.939 registros, acima, inclusive, do poderoso e tradicional PMDB, que vem em seguida com 2.662 militantes inscritos.

Na avaliação de Madureira, a manutenção de reuniões periódicas, contato com seus filiados, renovação dos quadros e vida ativa em segmentos sociais colaboram para esta posição. “E veja que nós não somos governo e mesmo assim conseguimos segurar filiados, muitos com base na amizade e nos contatos. Ajuda muito também o fato do PP estar integrado a uma comunidade de bairro e ter presença em outros grupos como time de futebol e escola de samba. Mas o que manda mesmo é ter líderes em diferentes segmentos e contato permanente com esse pessoal”, avalia Madureira que tem laços com o futebol amador através do time Parquinho, do Parque Vista Alegre, e a Escola de Samba Cartola, no mesmo bairro.

Dono do poder nos últimos 10 anos no Estado de São Paulo, o PSDB aparece em terceiro entre os com maior estrutura em Bauru, com 2.542 integrantes oficiais. Pelo mesmo parâmetro comparativo, não deixa de ser surpresa a presença do PT na sétima posição, com 1.082 filiados registrados, atrás de legendas como o PTB (1.760) e o PDT (1.295).

A tendência é de que os partidos políticos cresçam e ganhem filiados em períodos de mandato. Isso aconteceu com o PPS em Bauru que, após o término da gestão Nilson Costa, se fragmentou.

Mas se a lista dos partidos locais aponta números que saltam aos olhos em relação ao reduzidíssimo número de filiados inscritos, também não chega a ser expressivo o número médio de filiados mesmo para os que já contam com vida orgânica de vários anos. Na média, 10 partidos não conseguiram inscrever mais que uma centena de filiados na Justiça, entre os quais estão legendas tradicionais como o PCB (67) – que perde para o pouco conhecido PTN (98) e o PHS (178) -, mas ainda está longe de estruturas mais ativas, como o PC do B (674 filiados), que, por sua vez, apresenta número quatro vezes maior que os 161 registros do PSB. Conforme a Justiça Eleitoral, o total de filiados em partidos políticos em Bauru é de 18.424 pessoas, 8% do número de eleitores, que passam dos 225 mil até este momento. (NG)