08 de julho de 2026
Polícia

Quatro sem-terra são feridos à bala

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

O conflito agrário, que há quatro anos tem como palco o Horto Florestal Aimorés, na divisa entre Bauru e Pederneiras, registrou ontem seu mais grave episódio. Logo pela manhã, quatro sem-terra do Movimento Terra Nossa foram feridos à bala. O desfecho da ocorrência resultou na prisão de dois suspeitos pelo atentado contra os agricultores. Uma sem-terra também foi detida. Na bolsa dela a Polícia Militar (PM) encontrou um revólver calibre 22.

Ivete de Almeida, 44 anos, foi presa por porte ilegal de arma. Já os outros dois (Ednilson Ferreira dos Anjos, 29 anos, e Paulo Henrique Alves, 19 anos), por tentativa de homicídio. Ninguém morreu por sorte, dizem os integrantes do Movimento Terra Nossa.

Eles contam que três homens armados chegaram atirando em direção dos cerca de 40 agricultores que iniciavam, por volta das 7h, o plantio de abóbora, mandioca e quiabo. Um projétil feriu de raspão o braço (próximo à axila de Ernesto Belíssimo, 60 anos. Outro atingiu superficialmente as costas de Sônia Beatriz de Jesus, 23 anos.

Sebastião Rodrigo dos Santos, 48 anos, ficou ferido na mão depois que um projétil repicou no solo e o atingiu. Já Euclides Machado da Silva Machado, 47 anos, teve a orelha perfurada por uma bala e foi socorrido ao Pronto-Socorro Central (PSC). Segundo os integrantes do movimento, os homens armados não teriam se intimidado nem diante das crianças, que também tiveram de correr para fugir do tiroteio.

Atentado

“Miraram a arma da minha cabeça. Só não mataram por que não quiseram”, conta Sueli Garcia. Situação semelhante foi vivenciada pelo coordenador da Central Única dos Trabalhadores (CUT) Francisco Wagner Monteiro. Escalado para acompanhar o plantio, ele afirma ter presenciado o atentado.

“Eles tentaram tirar de mim a máquina fotográfica. Dois pediam autorização para o Ednilson para atirar para matar. Por celular, Ednilson perguntava para o Pagani se podia matar”, diz. Roberto Pagani, que nega a versão de atentado, garante ter a propriedade da área, demominada como Fazenda Mirante. Projéteis e cartuchos foram encontrados na área. Quando a PM chegou, os três homens fugiram.

No entanto, por meio de cerco realizado por policiais da equipe de Pederneiras, das bases Norte e Leste de Bauru, da Força Tática, do Canil, da Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicleta (Rocam) e com o auxílio do helicóptero Águia, Anjos e Alves foram localizados, depois do rio Bauru. O terceiro homem fugiu.

Armas

Com Ednilson a PM encontrou um revólver da marca Taurus calibre 38, municiado com dois cartuchos deflagrados. Já Alves foi detido com uma espingarda calibre 22, municiada com um cartucho deflagrado. No bolso dele ainda foram encontrados 12 cartuchos, todos também deflagrados. Eles, porém, negam o atentado e garantem que agiram em legítima defesa.

Em função das alegações, os veículos dos sem-terra estacionados no local foram vistoriados, informa o comandante da 6ª Companhia da PM de Pederneiras, capitão Ézio Carlos Vieira de Melo. No interior de uma bolsa feminina foi localizado um revólver calibre 22, com capacidade para sete tiros, sendo quatro intactos. Como Ivete afirmou se proprietária da bolsa, também recebeu voz de prisão.

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Inquérito

A Delegacia de Polícia de Pederneiras, onde a ocorrência foi registrada, instaurou inquérito para investigar a tentativa de homicídio contra os sem-terra. De acordo com o delegado Márcio José Alves, Roberto Pagani será chamado para depor. O loteador corre o risco de responder por posse de arma.

Já quanto às acusações que o apontam como o responsável por ordenar o atentado, o delegado não nega a dificuldade em provar o vínculo. No caso dos dois rapazes presos, caso sejam condenados por tentativa de homicídio, podem permanecer presos por até 20 anos, dependendo da qualificação do crime.

Já a agricultora detida por porte de arma pode pegar pena de até quatro anos de reclusão, além de multa. Ela foi encaminhada para a cadeia pública de Pirajuí e os dois acusados por atentado, para a de Avaí.

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Temor

“Ninguém dorme aqui à noite”. A frase foi repetida por vários integrantes do Movimento Terra Nossa. De acordo com eles, há mais de um mês, as cerca de 150 famílias do acampamento enfrentam a madrugada ao som de disparos de arma de fogo.

“Além da intimidação, eles oferecem maconha e cocaína para os filhos dos agricultores. É uma forma de enfraquecer o movimento. Estamos elaborando um documento para encaminhar à Polícia Militar (PM), Polícia Federal e Ministério Público (MP)”, explica o coordenador da CUT, Francisco Wagner Monteiro.

Independentemente das iniciativas oficiais, o grupo garante que permanecerá na terra. Dizem que só saem com decisão judicial, apesar do medo e do tiroteio de quase 30 minutos. A resistência corre à revelia das ameaças de morte que o líder do movimento, Celso Costa, diz estar recebendo.

O horto os acolhe há mais de quatro anos, mas o grupo está nas terras reivindicadas por Pagani há aproximadamente seis meses. O plantio de abóbora ontem seria realizado dentro Fazenda Mirante, área que dispõe, inclusive, de uma sede de alvenaria. Foi no local que os sem-terra encontraram – após o tiroteio e o cerco da PM - projéteis, cartuchos e documentos do terceiro homem, que supostamente teria participado do atentado.

O trio também é acusado pelos agricultores de ter queimado quatro barracos das famílias do movimento, na madrugada de domingo.