08 de julho de 2026
Polícia

PM escala cão para ação de confronto

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 3 min

Desentendimento de casal foge do controle e mobiliza os vizinhos. A Polícia Militar (PM) é acionada. Mas ao perceber a presença policial, o agressor o ameaça com um espeto de assar carne. O rapaz só é mobilizado com o auxílio de um cão, único companheiro de trabalho do militar. A história, que poderia ser extraída de um roteiro de “enlatados americanos” como o K9, foi registrada há quatro dias, em Santa Terezinha, distrito de Lupércio (a 90 quilômetros de Bauru).

A atuação do soldado Júlio Rodrigues de Oliveira, da 4.ª Companhia da PM, e do cão rottweiler chamado Rambo no caso acima, além de ser pioneira do Estado de São Paulo, demonstra que o trabalho de cães também pode ser empregado em ações táticas e não apenas no patrulhamento preventivo, como ocorre atualmente. Bem treinados, os animais poderão evitar o confronto direto entre policiais e bandidos.

A medida garantirá mais segurança para ambas as partes, explica o capitão Fernando Marcos Bigeschi, comandante da companhia de Garça. Com títulos de campeão brasileiro e vice-campeão pan-americano de adestramento, ele também oferece suporte técnico ao canil da PM de Marília. Ontem, ele esteve em Bauru, no Comando de Policiamento do Interior – 4 (CPI-4) para ministrar treinamento específico sobre utilização tática de cães.

Simulação

No início das instruções, 27 policiais de cidades como Bauru, Jaú, Lins, Marília e Assis, acompanharam o pouso do helicóptero Águia, que trazia um pastor alemão já treinado para suportar barulho, o piso da aeronave e espaço restrito. Depois, também observaram uma simulação de confronto: com veículo roubado, o assaltante troca tiros com PMs e é imobilizado por um pastor belga de Malinois.

“Ele (o animal) não é treinado para pegar na jugular, isso é mito”, diz o capitão Bigeschi. De acordo com ele, os animais atacam braços e pernas, caso o alvo esteja em movimento. Senão, abdome e peito, explica. “É um ferimento que dá para tratar (diferentemente de alguns ferimentos à bala)”, informa.

O oficial ainda esclarece que os cães são treinados para “repicar” as mordidas (morder, soltar, morder, soltar), pois ao fixar a mordida num único local torna-se presa fácil. “No Exterior, eles já são muito usados (em ocorrências de alto risco). Tem gente que tem pena do cão, mas temos que priorizar a vida do homem. Essa técnica começou na Alemanha e foi disseminada pelo mundo. É muito utilizada em toda a Europa e nos Estados Unidos”, comenta.

Segundo Bigeschi, fora do Brasil, o emprego dos animais é utilizado especialmente em cidades muito pequenas, patrulhadas por apenas um policial, como é o caso do distrito de Santa Terezinha. A mesma experiência também já passou a ser adotada recentemente no Distrito de Frutal do Campo, em Cândido Mota.

____________________

Treinamento

Para acompanhar ações de confronto direto, o cão destacado pela PM deve ser treinado por dois anos, informa capitão Fernando Marcos Bigeschi. Mas como os 56 cães dos canis pertencentes ao CPI-4 (cuja jurisdição engloba 89 municípios) já foram adestrados para trabalhar no patrulhamento, o período necessário para prepará-los é menor.

Participam do treinamento para ações táticas apenas os animais com forte espírito de caça. Já para patrulhamento são selecionados os mais calmos, submissos e sociáveis. “Temos de perceber a característica dele e verificar se ele tem ímpeto para esse tipo de serviço (tático)”, diz o capitão.

A PM, normalmente, utiliza cães das raças rottweiler, pastor alemão e pastor belga de Malinois, independentemente do perfil da operação. “O cão tem muitas potencialidades e está sendo subutilizado. Ele pode ser usado, inclusive, para suprir a falta do homem”, acrescenta o oficial. Durante o treinamento, ele também demonstrou a eficácia do uso dos cães para farejar entorpecentes.