11 de julho de 2026
Bairros

Desnutrição afeta 4,6 mil crianças de Bauru atendidas pelo SUS

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 3 min

Crianças abaixo do peso, com anemia, crescimento lento e sistema imunológico frágil. Esse é o retrato das 4.689 crianças desnutridas atendidas pelas Unidades Básicas de Saúde em Bauru. Segundo uma estimativa da Secretaria Municipal de Saúde, 3,2% das crianças atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) apresentam algum grau de desnutrição. Apesar da maioria ser de casos considerados leves, se o problema persistir, principalmente no primeiro ano de vida do bebê, pode causar danos irreversíveis.

Segundo a médica Jaíra Maria Rocco Kirchner, do Programa de Saúde da Criança, mantido pela rede municipal, nos primeiros 12 meses de vida, a criança está em desenvolvimento cerebral e o prejuízo causado pela desnutrição nessa fase pode ser incalculável. Para combater o problema, a rede municipal está incentivando o aleitamento materno. E os resultados têm sido positivos.

“A amamentação melhorou muito em Bauru. A maioria das mães está alimentando seus filhos dessa forma”, observa Kirchner. Ainda assim, os dois principais programas da Secretaria Municipal de Saúde que atende as crianças com desnutrição, acompanha regularmente 4,6 mil meninos e meninas, grande parte concentrados nos bolsões de pobreza.

Não é apenas o peso abaixo do normal que identifica uma criança desnutrida. Kirchner explica que em muitos casos, a falta de alimentação adequada leva ao problema. “A criança acaba tendo o mau-hábito alimentar. Ela pode até ser gordinha, mas não está bem nutrida”, observa. Nos casos de sobrepeso, a médica explica que os pais e responsáveis não podem avaliar a criança comparando seu peso com o das outras. “O que determina é a evolução do peso do indivíduo. Por isso o acompanhamento periódico é fundamental”, aponta Kirchner. A desnutrição também pode ser orgânica, causada por doenças.

Nessas consultas médicas regulares, o principal remédio é o diálogo. “Gastamos muitas horas conversando. Temos que explicar a importância da alimentação adequada. Dar às mães a segurança necessária. E por isso que o trabalho deve ser feita na unidade básica. Se for na urgência e emergência, não tem a conscientização”, observa.

Acompanhando o assunto diariamente, a médica conta que a maioria dos casos de desnutrição em Bauru é leve, difícil de perceber pelo físico da criança. Nos casos graves, os pequenos ficam inchados, com problemas de pele, cabelo ralo. “Você vê o resultado da falta de nutrientes no organismo”, diz Kirchner. Por isso, ela ressalta a importância do aleitamento materno. “Ele é vital. Sem ele, as crianças, até as maiores, ficam mais suscetíveis à infecções, porque o organismo não possui matéria-prima para fazer suas defesas”, explica a médica.

Multimistura

No Parque São Geraldo, oito pessoas se espremem no barraco de três cômodos de Luzia Bento, 63 anos. É hora da janta, e todos sabem o cardápio de cor: arroz feijão e frango. Numa casa com quatro crianças, essa não é a refeição mais recomendada pelos nutricionistas. “É melhor que comer apenas arroz, mas está faltando o legume, a verdura, que são necessários para a boa alimentação”, pondera Kirchner.

Na casa de dona Luzia, a família vive apenas com a renda do seu marido, que é aposentado, e com R$ 95,00 do Bolsa-Família.

A pequena Juliana, de 7 anos, uma das netas de Luzia, está com o peso abaixo do recomendado. “Ela come bem pouquinho”, conta a avó. Atendida pela Pastoral da Criança, Juliana recebe do projeto uma farinha chamada “multimistura”. “Mas eu aproveito e dou um pouco para cada um”, conta Regina que com 26 anos, é mãe de Juliana, Jennifer, 12 anos, Joyce, 8 anos e Gabriel, 3 anos. O caçula, apesar de ser bem franzino, está com o peso ideal. “Faço o acompanhamento certinho”, garante Regina.