A utilidade do amendoim e do girassol pode ganhar muito espaço com o desenvolvimento do projeto de produção de biodiesel no Brasil. E a região de Bauru apresenta condições de sobra para o cultivo dessas culturas. Em razão do grande teor de óleo que oferecem, esses produtos destacam-se como matérias-primas potenciais para o obtenção do “combustível do futuro”.
Gil Miguel Câmara, professor do departamento de produção vegetal da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), defendeu essa tese ontem em Bauru, durante o 1.º Seminário Regional de Biodiesel, sediado no Recinto Mello Moraes. Para ele, o amendoim e o girassol são favoráveis tanto econômica quanto geograficamente em todo o Estado de São Paulo, inclusive em Bauru. Entretanto, ele salientou que o cultivo só é viável no caso do produtor ter uma garantia de mercado.
“Essas culturas possibilitam ao produtor diversificar tecnicamente a propriedade em termos de produção, já que correspondem a famílias diferentes de plantas. Mas para isso, é preciso ter garantia de mercados consumidores. Caso contrário, fica difícil cultivar algo além da tradicional soja”, comenta o professor.
Maurício Lima Verde, presidente do Sindicato Rural de Bauru e vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp), concorda que o município apresenta características propícias ao cultivo de culturas viáveis à produção de biodiesel. Porém, considera que o preço de venda desses gêneros não é compensador para os produtores atualmente.
“Hoje, se eu for plantar mamona e vendê-la pelo valor atual de compra para a produção de biodiesel, vou perder dinheiro. O preço de hoje não se justifica”, completa.
Lima Verde sugere um contrato de integração entre indústria e produtor, o que, segundo ele, é muito comum nas criações de aves e suínos. “A empresa contrata uma determinada produção, por um certo período, com o valor pré-estabelecido. O produtor vai disponibilizar apenas a quantidade solicitada e durante um prazo previsto, o que diminui os riscos de perdas”, diz o produtor.
Superoferta
O professor da Esalq, Gil Câmara, chama a atenção para o problema de superoferta de produção que os produtores agrícolas estão sujeitos. Ele lembra que é preciso dimensionar com cautela o volume a ser produzido com o consumo em potencial.
Câmara ressalta que a produção de mamona no Brasil duplicou da safra 2003/2004 para a de 2004/2005, em razão do incentivo do plano nacional de biodiesel. Essa evolução, aponta ele, duplicou a área de cultivo no País e, conseqüentemente, fez o preço do produto despencar no mercado de R$ 35,00 para R$ 17,00.
“Como a indústria não deu conta de processar o volume, a notícia do excedente de mamona foi suficiente para o preço cair a mais da metade, o que descapitalizou o produtor. Esse exemplo também é válido para o amendoim e o girassol, que não estão imunes a esse problema”, avalia Câmara. “O crescimento tem de ocorrer passo-a-passo, na mesma proporção da real necessidade de consumo”, acrescenta.