09 de julho de 2026
Articulistas

Botox para o caráter


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A televisão é o mais importante veículo de comunicação política contemporâneo. Nenhum comunicólogo se atreveria em dizer algo em contrário. Mas é preciso não exagerar seu poder. Se ela fosse tão decisiva, nem seria preciso fazer votação. Quem tivesse mais tempo no vídeo já poderia ser proclamado vencedor. É o caso de Geraldo Alckmin, com mais tempo na TV do que qualquer outro adversário. Mesmo assim não consegue derrubar o Lula das pesquisas de intenções de votos. Os partidos da oposição pedem para o candidato do PSDB “descer o pau”, como única saída para tornar palatável do chuchu insosso. E ele obedece: “o PT é um descalabro, parece uma lista telefônica de corrupção”. Bruto! Ainda admite a reeleição do adversário ao garantir aos telespectadores que “o Brasil vai crescer pouco com o PT”. Já está, e deve continuar.

Creio não exagerar quando elevo a TV à condição de fenômeno, capaz de chegar aos lares onde, muito provavelmente, não se tenha geladeira, fogão a gás ou outros utensílios da vida moderna. Mas o povo é massa inorgânica. Quando decide desembestar para um dos lados não há quem segure. Tanto elege Jânio como Erundina e, Maluf na seqüência, como aconteceu em São Paulo. Do centro para a esquerda e depois para a extrema-direita a manada corre sem rumo, talvez por falta de um líder carismático.

O jantar recente, na casa do ministro Gilberto Gil, deu bem uma idéia do que pensa parte da elite. E se artistas e intelectuais assim raciocinam: por que o povo tem obrigação de ser ético? O cineasta Luís Carlos Barreto, seguidamente subsidiado em suas produções pelo governo, defendeu “a ética da conveniência”. Para ele “os fins justificam os meios. A política é um terreno pantanoso”. E põe lama nesse pântano... Paulo Betti, ator global e petista roxo evitou meias-palavras: “Não vamos ser hipócritas. Política se faz com as mãos sujas. Não tem como não pôr a mão na m...” O arranjador Wagner Tiso declarou não estar preocupado com a ética do PT. “Acho que o PT fez o jogo que tem que fazer para governar o país”. Todos, evidentemente, patrocinados por empresas estatais e favores governamentais. Deve ter sido uma noite e tanto na casa do famoso Gilberto Gil, outrora perseguido político junto com Caetano, ambos exilados na Inglaterra. Que ideais será que defendiam? Foi “a noite dos velhacos”, sentenciou o jornalista Augusto Nunes. Sou mais otimista, como Werfel: “Não há noite tão terrível que o sol dela não se compadeça”. Sartre escreveu uma peça teatral chamada “Mãos Sujas”, justamente sobre a inutilidade da política. O que é hoje, amanhã não será, mas poderá voltar a ser ao depois.

Há certas leis não escritas no Brasil que são aceitas por todos. Neste país, camelô pagar propina é normal; exceção é pagar imposto. Você já viu uísque servido sem choro? Enterro de anão? Gêmeos negros? Mendigo careca? Pois é. Assim também ocorre na política. Caráter, fidelidade, honra, vergonha na cara, honestidade, cumprimento da palavra empenhada... em política não existe. Isso é lei consuetudinária, isto é, baseada nos usos e costumes.

Agora os candidatos descobriram o Botox, o produto perfeito para esticar a pele, alisar a testa e disfarçar as rugas, com a finalidade de transformar expressões empedernidas em faces angelicais. E o Botox para o caráter, quando haverão de inventar? E o Botox para remover as rugas da desonra, derrubar a máscara, a cara-de-pau que instila de ânimo os mensaleiros e sanguessugas?

Vá lá que os eleitores se impressionem positivamente como a higidez estética dos candidatos que se mostram engomados da cabeça aos pés. Admita-se que invejem a jovialidade de candidatos rodados em desregramentos de toda ordem, Entretanto, que separem a avaliação que fazem da aparência física, da aparência moral, esta sim, decisiva para se escolher quem deve e quem não deve merecer o voto popular.

Na próxima terça-feira deverá ser votado no Congresso o projeto que acaba com o voto secreto em cassações de mandato. Última esperança de acabar com a impunidade dos deputados corruptos. Duvido que haja quórum. Que Deus nos proteja.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC