Se “Gil Luminoso” (Biscoito Fino) tivesse saído comercialmente em 1999, já seria um ponto brilhante na discografia de Gilberto Gil. Mas o lançamento agora lhe dá uma aura especial. Em recesso como compositor, em fase eloqüente como ministro, Gil ressurge no CD como o músico e letrista brilhante que é e, ainda melhor, em um tom tão intimista que beira o silêncio.
Camaleônico, Gil já foi e fez um pouco de tudo na música brasileira, sem nunca deixou de contemplar os sons e as práticas pop. O reverso amargo dessa sintonia permanente com o presente é a pouca atenção com a atemporalidade de uma interpretação sóbria - mas em nada fria - que dispense onomatopéias, falsetes exagerados e o uso de parafernálias elétricas. Aqui, resta apenas a precisão da voz e do violão.
“Gil Luminoso” evoca, na sonoridade, o Gil pré-tropicalista, mas já é o artista carregado de bagagens históricas, pessoais e intelectuais. Dois bons casos são “Tempo Rei” e “A Raça Humana”, músicas de inegável qualidade, mas que estavam cobertas pela poeira que os arranjos pop costumam soltar com o passar dos anos. A primeira é interpretada com uma batida quase única - e quase metalingüística - do violão, reinaugurando a canção. A segunda, originalmente um reggae, vira praticamente um fado, pontuado por belos assobios de Gil.
As faixas que abrem e fecham o CD ajudam a traduzi-lo. “Preciso Aprender a Só Ser”, resposta a “Preciso Aprender a Ser Só” (Marcos e Paulo Sérgio Valle), é de um despojamento que traduz o otimismo sem afetação da letra e remete à maneira simples como Gil a compôs: em meia hora de um sábado à tarde, após a praia, sentado num tapete branco. “O Compositor me Disse”, dada em 74 a Elis Regina como um “exercício de relaxamento da interpretação”, segundo Gil, não teve da cantora a versão esperada, e aqui ganha a suavidade que o compositor queria dizer.
Gasta em regravações e rodas de violão, “Super-Homem - A Canção” é outro exemplo de transformação: tornou-se um fox envolvente, amoroso como a letra. “Aqui e Agora”, “Copo Vazio”, “Retiros Espirituais”, “O Seu Amor”, “Rebento”, “Metáfora”, “Meditação” e outras completam o todo que mostra como é pleno o diálogo entre música e silêncio.