No filme norte-americano “Infidelidade” (2002), Connie, interpretada por Diane Lane, e Edward (Richard Gere) têm um filho pequeno e vivem um casamento perfeito e feliz. O acaso, porém, prepara uma surpresa para ela, que se apaixona perdidamente pelo charmoso vendedor de livros Paul (Olivier Martinez), mais novo do que ela. E, embora relute para aceitar este sentimento, não resiste e inicia um caso extraconjugal, fato que acaba sendo descoberto pelo marido e abala seriamente seu casamento.
Enredos como este não são restritos à ficção. Longe da telinha, muitas histórias reais provam que é possível alguém amar duas pessoas ao mesmo tempo, aponta o psicólogo Sandro Caramaschi, professor do departamento de psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e especializado em comunicação não verbal e etologia (ciência que estuda questões adaptativas e evolutivas das espécies).
Quando se trata de relações afetivas, é necessário ressaltar suas diferentes dimensões, observa Caramaschi. “Se pensarmos em amor, relacionamento e sexo, podem ocorrer várias situações: a pessoa pode ter apenas um envolvimento emocional, uma relação emocional e sexual, ou somente sexual”, diz. Neste sentido, aponta ele, todas as combinações existem e são possíveis. “A pessoa, por exemplo, pode ter um segundo relacionamento, o qual não necessariamente tem a mesma intensidade ou envolve as mesmas dimensões da primeira relação afetiva. São formas diferentes de amor.”
Segundo o professor, além da questão cultural, razões adaptativas e evolutivas ajudam a compreender o duplo amor, que pode fazer parte do repertório comportamental de homens e mulheres, mas é percebido de forma diferente por ambos. Ao contrário deles, que normalmente priorizam a relação em uma dimensão sexual, elas vivenciam o relacionamento afetivo dentro da perspectiva emocional. As mulheres são mais seletivas, observa Caramaschi, e investem em parceiros com características mais favoráveis.
“Ela não terá uma relação extraconjugal com qualquer homem porque prioriza o relacionamento com o melhor. Neste sentido, é possível imaginar que a mulher investe em alguém mais atraente, que desperta, excita e chama mais sua atenção”, detalha Caramaschi. Do ponto de vista evolutivo, destaca, as mulheres procuram homens com melhores características biológicas e genéticas.
Segundo o professor, o comportamento humano funciona em duas dimensões: uma é próxima, o que corresponde à atração e ao desejo, e a outra tem finalidade a longo prazo e diz respeito à questão evolutiva. “Quando a mulher se sente atraída por alguém, não fica pensando que vai melhorar a qualidade genética de sua prole. Não funciona desta forma. Há uma motivação imediata e um caminho pelo qual a evolução seleciona melhor os parceiros dentro deste processo”, detalha ele, ressaltando que os homens também têm situações parecidas, mas agem com propósitos diferentes das mulheres. “Para eles, o interesse não é procurar melhor bagagem hereditária, mas produzir o maior número de filhos e descendentes. E, por isto, geralmente buscam alternativas de relacionamentos rápidos, sem vinculação emocional.”
Estas razões ajudam a explicar por que, a exemplo do filme “Infidelidade”, uma mulher pode amar seu parceiro fixo e, ao mesmo tempo, ter uma paixão fulminante por outro, estabelecendo uma relação extraconjugal.
É arriscado, porém, afirmar que amar duas pessoas é natural do ser humano, enfatiza Caramaschi. De acordo com ele, a prática faz parte do repertório comportamental, mas depende dos limitadores sociais e culturais, que podem ser maiores ou menores, dependendo de cada pessoa. “É uma conjunção de fatores. Depende dos valores individuais, seu grau de envolvimento e repressão, e de encontrar uma pessoa disponível que desperte todas estas paixões.”
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Na telinha
“Cidade Baixa” (2005), de Sérgio Machado – No drama, os amigos Deco (Lázaro Ramos) e Naldinho (Wagner Moura) ganham a vida fazendo fretes. Quando conhecem a stripper Karina (Alice Braga), os dois se apaixonam e iniciam um relacionamento a três, marcado por emoções intensas e ciúmes.
“Sexo, Amor e Traição” (2004), de Jorge Fernando – Dois casais com problemas conjugais se envolvem com a chegada de uma terceira pessoa, que irá abalar seus relacionamentos. Comédia com Malu Mader, Fábio Assunção, Caco Ciocler, Alessandra Negrini e Betty Faria.
“Eu, Tu, Eles” (2000), de Andrucha Waddington – Enredo mostra a história de uma mulher e seus três maridos. Eles vivem todos juntos no Nordeste brasileiro. Casada com Osias (lima Duarte), Darlene (Regina Casé) se envolve com o primo do marido e também com um colega que trabalha com ela nos canaviais.
“Proposta Indecente” (1993), de Adrian Lyne – Protagonizado por Robert Redford e Demi Moore, filme mostra a história de um casal que resolve, sem sucesso, tentar a sorte em Las Vegas. Então conhecem um milionário que oferece 1 milhão de dólares ao marido para permitir que ele durma com sua esposa por uma noite.
“Entre Dois Amores” (1985), de Sydney Pollack. Com Robert Redford e Meryl Streep no elenco, drama é baseado em um livro e relata a história real da baronesa dinamarquesa Karen von Blixen-Finecke, mulher forte e independente e forte que dirige uma plantação de café no Quênia. Casada por conveniência com o Barão Bror von Blixen-Finecke, ela se apaixona pelo misterioso caçador Denys Finch Hatton.
“Dona flor e seus dois maridos” (1976), de Bruno Barreto - Inspirado no livro de Jorge Amado, conta a história de Dona Flor, sedutora professora casada com o “bom vivant” Vadinho, que morre precocemente. A viúva se casa novamente com o recatado farmacêutico da cidade, mas com saudades do antigo marido faz com que ele retorne em espírito. Isto a deixa em dúvida sobre o que fazer com os dois amores que dividem seu leito.