09 de julho de 2026
Articulistas

D. Luciano que eu conheci


| Tempo de leitura: 4 min

A Igreja no Brasil chora comovida a morte de Dom Luciano Mendes de Almeida SJ, ocorrida no Hospital das Clínicas de São Paulo, ao anoitecer do passado dia 27 de agosto, após longa luta contra um câncer no fígado. Dom Luciano nasceu no Rio de Janeiro, em 5 de outubro de 1930, no seio de tradicional e nobre família carioca, sendo seu pais Cândido Mendes de Almeida e Emília Mello Vieira de Almeida. Ainda jovem, em 1947, entrou para a Companhia de Jesus (Ordem dos Jesuítas), cursando Filosofia em Nova Friburgo (1951-1953) e Teologia em Roma na Universidade Gregoriana (1953-1958), onde doutorou-se em Filosofia em 1965. Meu primeiro contato pessoal com ele foi num Retiro Espiritual que pregou para sacerdotes da Arquidiocese de São Paulo, em setembro de 1975, na Casa de Encontros dos jesuítas em Itaici. Era, então, padre Luciano, presidente do Regional Sul I da CNBB, que compreende todas as dioceses do Estado de São Paulo.

Nesse Retiro aprendi a admirar não apenas a riqueza dos conhecimentos teológicos de padre Luciano, mas sobretudo sua profunda espiritualidade, sua intensa vida eucarística e de oração, sua austeridade, simplicidade e humildade. Tive a alegria de participar da Missa, na Catedral de São Paulo, no dia 02 de maio de 1976, quando padre Luciano foi sagrado bispo pelo Cardeal de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns OFM. Lembro-me que eu estava concelebrando ao lado do parapsicólogo jesuíta padre Oscar Quevedo, a quem confidenciei um meu sentimento: o Senhor está presenteando sua Igreja com um santo pastor! A Arquidiocese da cidade de São Paulo (com 12 milhões de habitantes) estava dividida em várias Regiões Episcopais, cada uma ao encargo de um bispo, sob a democrática presidência do cardeal Dom Paulo Evaristo. Coube a Dom Luciano o pastoreio da imensa Região de Belém ou Leste I, ali permanecendo de 1966 a 1988.Seu trabalho pastoral caracterizou-se pelo desvelo e atenção para com os pobres e marginalizados. Foi o responsável arquidiocesano pela Pastoral do Menor, pupila de seus olhos de pastor. O amor e o desvelo pelo rebanho fez dele o pastor das noites indormidas ou mal dormidas. Uma cena constante e até hilariante era ver Dom Luciano cochilando durante os encontros e reuniões, mas captando tudo o que se falava e acontecia ao seu redor. Dizia ele: “Tudo se grava em minha mente e depois eu leio o que disseram!” Um fenômeno psicológico que Dom Paulo não sabia explicar. Certa vez, o jornalista Ricardo Kotscho pediu-lhe licença para passar um dia inteiro ao seu lado, pois queria melhor conhecer seu dinamismo pastoral. Combinado o início da jornada às 6h30, lá se encontrava o jornalista na casa de Dom Luciano que, todavia, tinha perdido a hora e estava dormindo. Motivo: como acontecia com freqüência, tinha acolhido um mendigo (desta vez embriagado) e varou a noite dando atenção ao seu hóspede... que, naturalmente, também estava dormindo naquele momento! Kotscho terminou a jornada estafado, admirado como aquele homem de saúde frágil conseguia enfrentar tantos e diversificados afazeres ao longo do dia e sobre isso escreveu uma longa e simpática reportagem no jornal Folha de S. Paulo.

Foi secretário geral da CNBB nacional por dois mandatos (1979-1987) e presidente da mesma também por dois mandatos (1987-1998), tendo como secretário geral Dom Celso Queiroz, hoje bispo de Catanduva-SP. Tinha receio de viajar em avião, mas sentia-se seguro quando estava ao seu lado o secretário geral! Durante seu segundo mandato como presidente da CNBB, João Paulo II o nomeou arcebispo de Mariana, circunscrição Primaz das Minas Gerais. Ali continuou sendo o pastor zeloso de sempre, querido e estimado por todos. Participei de um outro Retiro Espiritual que ele pregou para os padres em São Paulo. Estava ainda se recuperando de um terrível desastre automobilístico que reduzira seu corpo a uma verdadeira fratura generalizada. Numa de suas palestras, talvez inspirando-se nesse episódio, falou do vaso quebrado a que tantas vezes nos reduzimos em razão de nossas fraquezas e pecados. E concluiu dizendo estas confortadoras palavras: “Deus é um especialista em recompor os vasos quebrados que todos nós podemos ser.” Impressionou-me um fato que ele contou, sem comentar, e que tomo a liberdade de relatar: na sua arquidiocese vive uma senhora que se tornou tetraplégica quando era jovem. Há muitos anos, ela nada come e nada bebe. Seu único alimento e bebida é a Eucaristia que ela recebe, imobilizada em seu leito!

O autor, Lourenço Maria Papin, é frei