Viena - A jovem austríaca que passou oito de seus 18 anos de vida refém deu entrevistas, e logo três, pela primeira vez desde sua fuga. Disse que tudo em que conseguia pensar era em escapar de sua “gaiola” e que o seqüestrador a levava para passear, mas sempre a vigiando.
O canal ORF, a revista “News” e o jornal “Kronen-Zeitung”, todos austríacos, veicularam as entrevistas com Natascha Kampusch ontem, duas semanas depois de ela escapar da casa onde era mantida presa nos arredores de Viena. Depois da fuga, o seqüestrador, Wolfgang Priklopil, 44 anos, cometeu suicídio, se atirando sob um trem.
“Eu só pensava em fugir. Perguntava a mim mesma várias e várias vezes por que, entre milhões de pessoas, isso aconteceu comigo?”, declarou. “Eu me sentia uma pobre galinha presa em um galinheiro. Vocês viram na TV o quanto a cela era pequena, era desesperador”, contou, referindo-se às linhas de produção em que são mantidas as aves criadas em cativeiro. “Prometia a mim mesma que nunca desistiria da intenção de escapar.”
A menina afirmou que Priklopil a levava às vezes para passear e ficava atento aos seus passos. “Ele sempre queria que eu andasse na frente, e não atrás.” Mesmo com a vigilância, ela tentou uma vez pular do carro, mas o seqüestrador “me segurou e acelerou”.
Apesar da vontade de escapar, Natascha temia que Priklopil a matasse no caso de não dar certo. A TV não pagou pela entrevista de 40 minutos, mas venderá os direitos internacionais e depositará o dinheiro em nome da menina, que havia pedido antes para não ser assediada pela mídia.
Segundo a ORF, a entrevistada escolheu as perguntas e vetou as íntimas. A possibilidade de abuso sexual durante o seqüestro ainda não foi confirmada pela polícia.
Protegendo freqüentemente seus olhos contra a luz do estúdio, Natascha disse à TV que vivia perturbada e nervosa no cativeiro subterrâneo na garagem do seqüestrador. Ela relatou que, no começo, costumava atirar coisas na parede para aliviar sua revolta e que teria enlouquecido se Priklopil não tivesse permitido que saísse seis meses após o seqüestro, em 1998.
Desde a fuga e ainda sem que as pessoas soubessem quem era, a menina afirmou que conseguia sair para tomar sorvete e passar desapercebida. “Era legal sorrir para as pessoas e não ser reconhecida por ninguém”, disse, com lágrimas nos olhos.
Outro problema para ela durante o seqüestro foi a alimentação. Nem sempre havia comida suficiente, contou. Segundo a revista “Profil”, Natascha pesava no dia da fuga os mesmos 42 quilos de quando foi levada a caminho da escola, aos dez anos.
A menina declarou que sentia palpitações no cativeiro, que, às vezes, deixam sua vista turva. Assim, antes de dar a entrevista para a “News”, no hospital-geral de Viena, um cardiologista a submeteu a exames.
O dia da fuga
Depois de a tão esperada fuga ter dado certo, Natascha pôde agora detalhá-la e a qualificou de “totalmente espontânea”. “Passei pelo portão do jardim e tive vertigem. (...) Corri em pânico por uma propriedade e abordei as pessoas. Elas simplesmente davam de ombros e saiam andando. Fui para outros locais, pulei a cerca, em pânico como num filme de ação. Então, vi uma janela aberta com uma mulher na cozinha e pedi a ela para chamar a polícia.” A mulher ainda demorou um pouco para decidir ajudá-la.
Sobre Priklopil, voltou a afirmar que lamentava seu suicídio, “porque ele podia ter explicado muito mais para mim e a polícia”, mas acrescentou que não pretendia mais falar dele.
Os planos da menina agora são cursar o ensino secundário e escolher uma carreira. Suas opções por ora são jornalismo, psicologia e artes. Quer também se envolver em campanhas por mulheres vítimas de violência e estuda se publica ou não um livro sobre sua vida.
Outro ponto tratado foi sua família. Natascha, que continua sob tratamento, afastada dos pais, disse amar os dois, que são separados. Ela tem falado com a mãe. Do pai, porém, não voltou a perguntar desde que o reviu após escapar. “Foi pior para eles do que para mim. Eles pensavam que eu estava morta.”