09 de julho de 2026
Pesca & Lazer

História de pescador: A estréia do molinete importado


| Tempo de leitura: 3 min

O pescador que se preza não “mente“, simplesmente, ele “inventa verdades“! Mas o que aconteceu naquele domingo de sol nem precisou deste recurso; foi a mais pura verdade! Vejam só o que o destino nos reservou... O astro-rei espargia, logo pela manhã, seus raios dourados sobre nossas cabeças, ofuscando-nos a visão e obrigando-nos a procurar uma generosa sombra ofertada pelos quiosques junto ao pequeno lago. O lugar? Mais uma vez o aconchegante Pesqueiro São Francisco, na minha inesquecível Piratininga.

A alegria transbordava este coração de pescador, pois pescávamos eu, o mano Irineu e o querido Miguel, meu primeiro neto, de apenas 4 aninhos. Festa em família! A ocasião merecia a estréia de um conjunto novinho em folha (vara e molinete), presente do amigo Renato, enviado diretamente do Japão.

O privilégio de usá-lo coube ao mano Irineu, que se deliciava com a expectativa de um bom peixe, enquanto eu me divertia com o Miguel, às gargalhadas, fisgando algumas tilápias no tanque ao lado, dando aquela “gozadinha” no mano que não havia, até então, sequer visto a cor de qualquer peixe! O castigo veio a cavalo, (cavalo-marinho, que é mais apropriado para a ocasião)!

A vara de cor “verde-fosforescente“, apropriada para pesca noturna, repentinamente, sofreu uma gigantesca puxada, mergulhando sua ponta na água e voltando, num frenético vaivém, como se tivesse fisgado um crocodilo gigante! Imaginem o desespero do Irineu, que se encontrava do outro lado do lago, vendo a paisagem, pois o suporte onde ele deixara a vara armada era seguro!

Em desabalada carreira, veio ele, levantando poeira, perdendo os chinelos, num desespero sem fim! Afoito, ao tirar do suporte aquela maravilha da tecnologia, vinda da Terra do Sol Nascente, novinha, ainda “virgem“ (a vara e o molinete), deixou escapar de suas mãos, trêmulas pela emoção, meu equipamento de pesca, que desapareceu na água, arrebatado pela força descomunal de algum peixe gigante que fôra fisgado. Precisavam ver a cara e o desespero do mano, observado pelo pequeno Miguel, que não entendia muito bem o havia acontecido.

Convocamos o amigo João, dono do pesqueiro, seu filho e todos que pudessem ajudar, a fazer uma varredura no lago, de todos os lados, com linhadas providas de grandes anzóis, na tentativa de “fisgar“ a vara. Com uma dor terrível pela perda, já estava eu pensando em pedir ao Renato uma possível reposição do meu material, lá do outro lado do mundo, no Japão, quando ouviu-se um grito esbaforido: – Peguei! Peguei! Era o Irineu que, munido de sua linhada de pescar no mar, com um imenso anzol, trouxera à tona a vara e o molinete há pouco desaparecidos.

Foi emocionante ver, à medida que ele recolhia a linha, minha querida vara (a do molinete) emergindo aos poucos, mais parecendo um periscópio de submarino! Que alegria! Irineu não sabia se ria ou chorava, sapateando no barro à beira do lago!

Para completar o dia, com o molinete todo enlameado nas mãos, ele bradou: - Nossa, o peixe ainda tá aqui!!!! E estava mesmo! Tristinho e já quase sem forças, cansado de rebocar a vara e o molinete pelo fundo do lago, nosso pacu de quatro quilos se entregou.

A foto comprova o fato. Meu amigo Renato, lá no Japão, ficou feliz, pois não precisou mandar para Bauru um novo conjunto de pesca!

Fernando Lucilha Jr. é pescador, contador de histórias e restaurador de molinetes, varas e carretilhas enferrujados pela ação da água.