09 de julho de 2026
Regional

Avós são executados na frente do neto

Luiz Galano
| Tempo de leitura: 6 min

Jaú - Sem defesa. Às 19h de anteontem, um homem encapuzado bate à porta. Cordialmente, Antônio Curvelo da Silva, 55 anos, morador de uma humilde casa de madeira na área rural do distrito de Potunduva - cerca de 8 quilômetros de Jaú -, destrava a fechadura para atender. Ao invés do genro, que usualmente o visitava todo início de noite, ele se depara com um cano de revólver. Depois de quatro tiros, o chão da cozinha se mancha de sangue. Ao fundo, os gritos de mais uma vítima inocente, o neto de apenas oito anos. O motivo: dinheiro.

Com o barulho, sua companheira, Cleuza Baister do Nascimento, 56 anos, sai da sala e segue em direção à cozinha. A arma, preparada, espera o primeiro sinal para disparar. Quando o corpo surge na porta, recebe três tiros fatais. O piso se tinge mais uma vez de vermelho. Ao fundo, gritos desesperados de alguém que se lembrará dos fatos pelo resto da vida.

O garoto, que menos culpa tem em tudo aquilo que está acontecendo, é poupado. Levado até um banheiro escuro, afastado, do lado de fora da casa, tudo o que resta para a criança é esperar pela chegada de socorro, que viria em alguns minutos.

Assim como era de praxe, o genro das vítimas, José Maria Costa, apareceu. Mas já era tarde. Ao se aproximar da chácara, que fica afastada da cidade, ele percebe que algo está errado. Um rapaz de rosto coberto corre apressado em direção à plantação de cana, ao lado da propriedade. Seria uma tentativa de roubo?

Como toda vez, ele estaciona o carro e buzina. A espera é mais longa do que o normal, a decisão é descer e verificar se alguém está na casa. Ao longe, gritos de socorro. O sobrinho pede por ajuda. Ao abrir a porta, a constatação. Se tratava realmente de um assalto e as notícias não eram nada boas.

Uma decisão difícil. Costa empurra a porta da casa e constata a tragédia. Chão tingido de sangue e objetos revirados no quarto. Apenas um item subtraído. Um pacote contendo R$ 1,5 mil. Recompensa de Antônio Curvelo por um árduo trabalho na lavoura de café de um vizinho.

Diante da difícil situação, o genro teve que manter a calma. O que restava era procurar ajuda. Ele avisa um vizinho e segue para o posto policial. Em pouco tempo a Polícia Militar (PM) chega ao local. A noite se estende. Buscas são realizadas na região, mas nenhum sinal do autor da tragédia é encontrado.

As diligências se intensificaram ontem. Auxiliados por denúncias anônimas e por uma equipe deslocada de Jaú, homens da PM e da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) fizeram blitz em diversos pontos do pequeno distrito de cerca de 5 mil habitantes, que geralmente não é palco de crimes como este. Moradores se lembram de um assassinato ocorrido em 1997. A PM, de uma tentativa de homicídio no início do mês passado.

Fora da rotina

De acordo com o delegado plantonista da Seccional de Jaú, Mário Bérgamo Júnior, que trabalhou durante mais de um ano em Potunduva, a situação é atípica para os moradores. “A população do distrito é carente e trabalhadora. Esse crime não é comum na região. Os maiores registros são de brigas e pequenos furtos”, revela o delegado, que destaca o empenho da DIG para a resolução do caso.

O major Airton Truijo, comandante interino do 27.º Batalhão da Polícia Militar do Interior (BPMI) de Jaú, participava das ações quando confirmou a fala do delegado. “Este é um fato inusitado. Aqui existem focos de criminalidade, mas que estão sob controle”, afirma o major, que aponta um aumento no números de ocorrências durante o período de colheita.

Em pesquisa no próprio distrito, a reportagem do JC recebeu informações de que a população aumenta nos períodos de safra, principalmente de cana. Diversos migrantes se deslocam das regiões Norte e Nordeste para tentar emprego e salários dignos para sustentar suas famílias deixadas na terra natal.

Truijo promete ação efetiva da PM. “Quando acontece um crime como este, que causa comoção na população, unimos esforços e intensificamos nossas diligências para que tudo seja solucionado o mais rápido possível”, ressalta.

Até ontem à tarde, um suspeito havia sido detido. Ele estava em liberdade provisória e cumpriu pena por diversos crimes. Como se encontrava em um bar e não podia freqüentar locais com venda de bebidas alcoólicas, foi levado à delegacia. No entanto, não foi constatada participação no crime.

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Família não entende o motivo

Cabisbaixo, sentado num canto afastado da aglomeração de pessoas que prestava homenagem às vítimas, o trabalhador rural José Curvelo da Silva, irmão de Antônio Curvelo, tentava, sozinho se consolar. “Aqui é uma cidade calma. É a primeira vez que eu vejo isso”, revela.

Atordoado, o irmão tentava juntar as peças. “A conversa é que tinha vendido uma quantia de café e recebido um dinheiro e alguém já estava na cola dele”, afirma.

“Na família, ninguém está acreditando. Eles viviam na roça. Plantavam e colhiam. Batalhavam de sol a sol para sustentar a família. Ninguém bebia, muito menos andava em bar ou dava qualquer tipo de trabalho. Era de casa para a lavoura e da lavoura para casa”, explica o irmão.

O genro de Antônio, que chegou ao local do crime momentos depois do acontecimento e chegou a avistar o assassino em fuga, estava desconsolado. “É uma tragédia sem explicação. A vida deles era trabalhar no sítio. Eu mesmo paro, fico pensando e não consigo acreditar”, desabafa José Maria, casado com uma das três filhas do casal, que aguardou no carro enquanto o marido resgatava o sobrinho e tomava conhecimento da tragédia.

José Curvelo, com humildade e bom coração, não pensa apenas na família. “Sabe, a gente gostaria que essa pessoa fosse pega pela polícia. Com a nossa família, a tragédia já aconteceu. Eu penso que uma pessoa como essa pode trazer desgraça para mais gente”, lamenta.

“Eram trabalhadores”

Nascidos e crescidos na região, Antônio e Cleuza moravam há 42 anos no distrito de Potunduva. O casal era considerado um exemplo de trabalho, dedicação e humildade. A reportagem do JC entrevistou diversos moradores locais. Nenhuma queixa contra o casal foi constatada.

O proprietário da chácara onde Antônio e Cleuza moravam, Lauro Penteado, se deslocou da cidade de Campinas até Potunduva durante a manhã para prestar sua homenagem. “É uma tragédia, sem sombra de dúvidas. Conheço a família há muito tempo, desde a época dos meus avós. Foi realmente um choque. Sempre foram pessoas de bem e trabalhadoras”, destaca.

Mário Lúcio Roberto, que trabalha no Cemitério Municipal João do Rego e mora em Potunduva desde 1987, afirma que nada similar havia acontecido na cidade. “Lembro que em 1997 roubaram uma usina e mataram um homem. A gente fica chocado com isso. O povo está comentando bastante. Tem gente que até se revolta”, afirma o funcionário municipal, que também destacou as virtudes do casal morto. “O negócio deles era trabalhar”, confirma.

Outro morador, Dirceu de Jesus Martins, se indigna. “As pessoas boas estão com saúde, trabalhando, aí chega um louco e tira a vida. Não tem como entender. A pessoa que faz isso não tem amor nem pela própria mãe. Não tem Deus no coração”, afirma.

Adolescentes que moravam perto da chácara também se desconsolam. “Eles eram gente boa, trabalhadores e esforçados”, diz Fernanda Cristina Moura, vizinha de 15 anos. “Não sei como tem gente que pode fazer uma coisa dessas”, completa Diego Fernando dos Santos, 14 anos. O corpo do casal foi sepultado às 16h, no Cemitério Municipal, em meio aos gestos de carinho da população local.