08 de julho de 2026
Rural

Brasil pode ser ‘Arábia Saudita verde’

Alceu Castilho - Correspondente JC em Brasília
| Tempo de leitura: 5 min

Ele acha que o Brasil pode se tornar a “Arábia Saudita verde do mundo”, por meio da produção de biocombustíveis. E que o Estado de São Paulo, líder nacional no setor por conta da produção de álcool, não deve só ficar observando o virtual crescimento da participação do Norte e Nordeste nesse bolo, estimulado pela política nacional de biodiesel, mas sim produzir também oleaginosas, como o amendoim e a palmeira de macaúba.

Miguel J. Dabdoub é um empolgado professor da Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto, onde coordena o Projeto Biodiesel Brasil. Ele preside também a Câmara Setorial de Biocombustíveis do Estado de São Paulo. A liderança estadual no setor de biocombustíveis é incontestável, informa o professor: são 128 usinas, num total de 307 no País; 3,38 milhões de hectares, em relação a 4,5 milhões de hectares. E 600 mil empregos diretos gerados com o álcool, num universo nacional de 1 milhão de empregos. Dabdoub diz que as regiões mais pobres do Estado, como o Vale do Ribeira e o Vale do Paraíba, têm potencial para a produção de oleaginosas, do amendoim a espécies ainda não desenvolvidas no Brasil, mas com muito maior rendimento na produção de combustível. Confira a entrevista:

Jornal da Cidade - Como ficará o mercado paulista de biocombustíveis com o estímulo à produção de biodiesel no Norte e Nordeste? Miguel J. Dabdoub - Acredito que o mercado paulista não será prejudicado porque o Norte e o Nordeste se desenvolvem. De maneira nenhuma. O grande potencial energético no Brasil, e talvez no mundo, se divide em dois setores: Sudeste, com São Paulo, englobando Minas Gerais e Paraná para o álcool, e as regiões Norte e Nordeste. Essas regiões têm o maior potencial para a produção de biodiesel, por causa das oleaginosas, de um clima adequado, da luminosidade adequada para cultivar as melhores plantas, que dão maior rendimento energético por hectare. Mas nada impede que São Paulo se desenvolva e aproveite o que é: o maior produtor de biocombustível no mundo. E, em termos de oleaginosas, é quem tem o maior parque industrial para esmagamento no país. São Paulo é importador de oleaginosas, de Goiás, Mato Grosso. São Paulo também pode produzir oleaginosas, integrando-as com a produção de cana. Nós temos 3 milhões de hectares dos 5 milhões que o Brasil tem plantado com cana, e podemos fazer a integração por meio da rotação das culturas. Temos exemplos de regiões, como a de Dumont, Pradópolis, Ribeirão Preto, Sertãozinho, maior produtora de amendoim do País, com a produção se incrementando ano após ano. Em 2004, o Brasil produzia 175 mil toneladas de amendoim. Em 2005, dobrou, praticamente, e a projeção para 2006 é que atinjamos 500 mil toneladas. São Paulo tem de integrar o álcool com as oleaginosas, com o amendoim.

JC - Os produtores estão cientes disso? Dabdoub - Os do setor sucroalcooleiro estão cientes. Agora, é um trabalho que demora. É um cenário que tem de ser esclarecido para o produtor. Muitas vezes as informações chegam erradas e dão a ele uma convicção errada. Quando se fala que o potencial está só no Norte e Nordeste, o pessoal do Sudeste diz: nós não temos chance neste setor do biodiesel, porque todo o incentivo fiscal está sendo dado para o Norte e Nordeste. Mas isso não impede que a região Sudeste se desenvolva com o potencial que ela tem, através da agricultura intensiva e também da agricultura familiar.

JC - E há a facilidade de logística... Dabdoub - Sim, a logística de São Paulo ninguém tem na América Latina inteira, do México à Patagônia. Agora, tem de ver que o mercado agrícola paulista migrou da oleaginosa para a cana, porque hoje ela é muito mais viável, economicamente falando, muito mais rentável. O crescimento da cana é uma coisa impressionante. E na medida em que entrar em outros Estados vai diminuir a força da produção de oleaginosas. Mas isso até que o produtor encontre a oleaginosa que vai competir. Essa é a que a vai ser plantada no Norte e Nordeste. Em São Paulo ainda não temos uma planta que possa competir com a cana. No Norte e Nordeste podemos ter o dendê, que bate a cana. No futuro podemos desenvolver espécies, para outras palmeiras, como a macaúba, que se dá muito bem no Estado de São Paulo, Mato Grosso e Minas Gerais, e aí sim o potencial energético do país mudará.

JC - Quais os possíveis impactos para a geração de empregos? A se notar que em São Paulo ainda há trabalhador morrendo de estresse na colheita da cana... Dabdoub - O setor da cana, dos bóias-frias, está em constante movimento. Ainda existem problemas. A minha filosofia é que devemos dignificar o trabalho, aumentando a qualidade e oferecendo um melhor pagamento ao trabalhador, sem a necessidade de tentar solucionar tudo por conta própria. Eu tenho que gerar empregos melhor remunerados, mesmo que seja reduzido o número de empregos, porque a obrigação de todos os membros da sociedade e do governo é colocar os olhos na geração de novos projetos, para suprir essa falta de emprego. Não podemos propor que se mantenha o bóia-fria a vida inteira, mas ser a favor da mecanização, para que aquele operário que opere uma máquina, um trator seja o antigo bóia-fria. Temos que procurar outros projetos agrícolas, como o do biodiesel, onde continuemos dignificando a remuneração e a qualidade de vida.

JC - As regiões paulistas mais pobres podem se beneficiar do biodiesel? Dabdoub - Sem dúvida. Temos projeto para o Vale do Ribeira, para o Vale do Paraíba, onde há muita coisa a fazer. É lá que existe o potencial. Estamos fazendo um trabalho com uma secretaria da Presidência da República para as populações quilombolas. Você encontra no Vale do Paraíba populações totalmente isoladas, que podem ser integradas. Observamos um potencial fantástico de produção de olíferas, de oleaginosas, que podem desenvolver estas regiões pobres do Estado. Isso vai ser trabalhado com uma política pública séria. Não adianta querer ir lá e espalhar mamona pelo Brasil. A microempresa deve ser estimulada, mas desde que articulada com a produção de escala, que é a viável. Para o Estado de São Paulo não podemos propor dendê. Mas podemos propor um programa de desenvolvimento de palmeiras alternativas, que bateriam a cana. É isso que o produtor tem de começar a entender. Neste momento a cana é imbatível. Você deixa de plantar soja por isso. O amendoim não deixa porque está consorciado. Temos que ter desenvolvimento para cada região. Não há competição com Norte e Nordeste: são cenários, climas, solos completamente diferentes.