08 de julho de 2026
Cultura

Samba pop

Diego Molina
| Tempo de leitura: 4 min

Dificilmente algum brasileiro passou imune, há alguns anos, por um samba-rock que cantava “E a galera lá do morro do Salgueiro e Vidigal/ Tá querendo balançar/ E a torcida do Corinthians e do Flamengo tá também/ Tá querendo balançar”.

O autor da música, o paulistano Leandro Lehart, ganhou destaque não somente como líder do grupo Art Popular, mas também como um dos compositores e produtores que mais teve canções pop e radiofônicas gravadas ao longo da década de 1990.

Hoje à noite, Lehart e sua banda vêm a Bauru com o show de lançamento de seu terceiro CD solo, “Deixa Eu Ir À Luta”, a partir das 23h, na Catedral. Sucessos não devem ficar de fora, mas sua proposta é mostrar as novas canções e reapresentar-se ao público – ainda como compositor pop, mas com os sentidos ligados no que acontece na música e no mundo.

De acordo com seu material de divulgação, Lehart pretende deixar claro que abdicou decididamente de construir hits radiofônicos – se é que vai ser possível. Apesar de ter surgido, com o Art Popular, no “boom” do pagode, o compositor e produtor sempre buscou sonoridades e influências que diferenciassem suas músicas do que a massa de artistas realizava.

Sem ressentir-se por ser popular, ele deu cores de soul, hip hop e samba-rock a suas músicas, e ainda introduziu elementos de rhythm & blues, axé, samba-enredo e música sertaneja de raiz.

“Deixa Eu Ir À Luta” explora a força criativa de Lehart com naturalidade e independência. Até porque somente com grande independência um artista se deixaria fugir das fórmulas, das letras adocicadas, das rimas fáceis e arranjos acomodados para lançar-se novamente na mídia. O disco, nesse caso, torna-se um conjunto que pede a audição do começo ao fim.

Como compositor, Lehart mistura a beleza do sol nas praias do Rio, em “Arpoador”, com o horror de George W. Bush e Saddan Hussein, em “Antologia de Cristo a Hussein”; a mulher loucamente amada que reaparece depois de uma longa saudade, em “Boa Noite”, com um banho de cachoeira, de “Vai Chover”, ou a receita de sorrir para curar a dor em “Sorri” e as palavras em tupi-guarani de “Curumim”.

O próprio paulistano define seu novo disco como uma seqüência de fotografias que todos armazenam na alma todos os dias.

O romance não fica de fora das composições, mas perde a sarna de rimar amor com dor. “Natureza da ciência/ Meu cachecol, ventilador/ Um instante, a eternidade/ Meu ‘faz tão bem’”, canta em “Meu Início Meu Recomeço Meu Fim”.

E a luta como compositor e brasileiro fica marcada na faixa-título: “Dessa vida eu não desisto, eu sei/ É que o amor tá aqui dentro, vou extravasar/ E sozinho eu sigo nas horas da vida/ Sem pedir licença pra continuar/ E sozinho essa luta vira covardia/ Deixe eu ir à luta não posso parar”.

• Serviço

Leandro Lehart e banda fazem show hoje na Catedral (rua Azarias Leite, 9-38). Ingressos antecipados limitados a R$ 10,00; na hora, R$ 15,00. Mais informações: (14) 3227-2213.

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Trajetória

Nascido em 1972, filho de pai negro e mãe branca, mestiços, Leandro Lehart passou pela infância sob uma trilha sonora que agregava Wilson Simonal e Aniceto do Império, clipes de Michael Jackson e Madonna, Djavan e Run DMC e o break da periferia de São Paulo. No colégio, começou a batucada de sambas de Almir Guineto e Beth Carvalho.

Em “O Mistério do Samba”, o antropólogo Hermano Vianna escreveu sobre Lehart: “É muito mais do que a síntese da São Paulo afro-descendente, descreve todas as ‘São Paulos’: os desfiles do Morumbi Fashion; o açaí dos surfistas da Faria Lima; o Jardim de Tom Zé; a decoração do Spot; o fast-food árabe do Habib’s. (...) Um artista não pode ser tudo isso, ou o porta voz disso tudo. Não estou dizendo que ele é a mais perfeita tradução de São Paulo depois de Rita Lee. São Paulo continua sendo perfeitamente intraduzível, mas vai estar mais próxima do que nunca da criação de sua mais autêntica e necessária música urbana”.

O primeiro CD do Art Popular foi lançado em 1993, depois de Lehart passar oito anos tocando em bares paulistanos. O segundo disco foi por uma grande gravadora e lançou sucessos como “Bom-Bocado”, “Valeu Demais” e “Nova Era”, apostando ainda no pagode romântico. “Temporal” começou a mostrar outros lados do compositor e produtor, como para preparar o terreno a “Sambapopbrasil”, que misturou eletrônica e mais samba-rock no som do grupo.

O Art Popular ainda foi o primeiro grupo de pagode a lançar um “Acústico MTV”, em 2000, que ganhou participação de Jorge Ben Jor em “Agamamou”.

Da Redação