Se seu filho está sempre com o fone de ouvido na orelha e você altera o tom de voz para que ele consiga ouvir seu chamado, cuidado. Num futuro breve, ele pode sofrer de distúrbios auditivos irreversíveis. Mania entre os adolescentes, os tocadores portáteis de música, como o iPod (que armazenam grande quantidade de canções em formato MP3) são os atuais vilões, como já foram o walkman e o discman. Os jovens não ligam para os perigo e insistem em ouvir música no volume máximo, diretamente nos ouvidos.
A doutora em pediatria e coordenadora da clínica de fonoaudiologia da Universidade do Sagrado Coração (USC), Sandra de Oliveira Saes, aponta que existe um crescente aumento no número de adolescentes com problemas de audição. “O Brasil é carente de trabalhos estatísticos nessa área, mas o que temos percebido é uma progressão gradativa. Nos últimos 5 anos, podemos perceber que os diagnósticos precoces cresceram cerca de 30% anualmente”, revela.
O som alto que atinge diretamente o sistema auditivo é o mais prejudicial. “Os estudos nessa área são recentes e escassos. O que temos são trabalhos dos Estados Unidos. Eles mostram que jovens expostos ao antigo walkman (que hoje se compara aos MP3 players) têm mais tendência em desenvolver essas doenças. O som emitido muito próximo ao ouvido não perde intensidade e vai diretamente para o sistema auditivo. Isso o torna muito pior que os outros”, destaca a fonoaudióloga.
Os sintomas dos problemas de audição são quase imperceptíveis, por isso é importante que os pais estejam atentos. “Se o filho reclama de zumbido no ouvido, se irrita facilmente em locais com muito barulho e tem dificuldade de concentração nos estudos, a mãe deve começar a se preocupar”, explica Sandra.
Como os sintomas são “ocultos”, os problemas começam a ser verificados de forma tardia. “É um processo gradativo. As pessoas precisam de um tempo de exposição para que a perda ou o sintoma de disfunção se manifeste”, alerta a especialista. “Na faixa de 25 a 30 anos os sintomas se tornam mais claros. A exposição na juventude, somada aos fatores do trabalho de outras doenças que vão surgindo, provocam incômodos”, completa.
O perfil dos doentes vêm mudando. “Antes, os transtornos auditivos eram típicos de trabalhadores que ficavam muito tempo expostos a ruídos. Hoje o enfoque mudou. Tanto crianças quanto adolescentes têm manifestado perdas auditivas. Mas no caso dos jovens, esses ruídos vêm do lazer”, revela. Segundo Sandra, dos adolescentes com problemas auditivos, aqueles que estão na segunda adolescência (dos 15 aos 19 anos) são os que mais procuram a clínica da USC.
O comportamento dos jovens é o mais prejudicial. “Eles cada vez mais procuram ambientes ruidosos. Vão muito a boates, usam fone de ouvido com música alta, no carro e em casa sempre colocam no último volume. É preciso ter períodos de pausa para que o sistema descanse”, alerta a fonoaudiológa.
Se o som que sai do fone de ouvido e vai diretamente para o sistema auditivo é o mais nocivo, dividir os pequenos alto-falantes traz mais problemas ainda. “Muitas vezes os adolescentes colocam o fone em apenas uma orelha. Nosso sistema auditivo recebe estimulação através dos dois lados. Quando você estimula apenas um, o sistema nervoso auditivo central fica privado de uma estimulação adequada. Isso pode interferir no desenvolvimento das estruturas que você tem para perceber o som” revela Sandra.
Companheiro fiel
Durante a saída de um colégio em Higienópolis, foi possível conferir a disseminação dos aparelhos de MP3. Os fones de ouvido parecem um item de primeira necessidade entre os adolescentes. Pendurados no pescoço, nas duas orelhas ou sendo divididos por amigos, eles já fazem parte do visual.
Sentadas numa mureta, esperando a chegada dos pais após um dia de aula do cursinho preparatório para o vestibular, as amigas Magdalena Castagnino e Nathália Oliveira Guarnetti dos Santos, ambas de 18 anos, dividiam os fones de ouvido e ouviam o som que saía do mesmo player.
Elas não se preocupam com os problemas que a “divisão” pode causar. “A gente ouve um pouco de um lado, depois troca para o outro. Assim o que gastou num ouvido é compensado no outro depois”, soluciona Magdalena, dona do aparelho, comprado há um ano e meio.
O “amigo” é indispensável. “Não largo ele para nada. Está sempre no meu bolso. É muito mais prático que walkman. Você pode colocar mais músicas e fazer a seleção que quiser”, explica a estudante, que ouviu música no volume máximo durante muito tempo. “Já teve época em que eu gastava uns 10 fones por mês de tão alto que eu ouvia. Hoje acho ruim, irrita”, revela.
Débora Constantino Silva tem 14 anos e também não larga o player que ganhou da tia. “Ela deve ficar umas duas horas com aquilo no ouvido. Em qualquer lugar que ela vá, leva o aparelho junto. Estava trazendo até para a escola, mas proibi”, conta a mãe, Simone Constantino da Silva. O volume alto é confirmado por Simone. “Quando ela senta ao meu lado dá para ouvir o som. Sempre falo para escutar mais baixo, mas não tem jeito”, lamenta.