09 de julho de 2026
Cultura

Tecnologia caseira e mão na massa

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 4 min

Estúdio profissional? Gravadora? Casas de show? Nada disso. Por falta de recursos ou pelo puro prazer do alternativo, bandas de Bauru tiram de quartos, carros e até mesmo de banheiros a acústica necessária para gravar seus discos e divulgá-los em circuitos alternativos. Este é o caso dos grupos Bonequinho e Strange Music, que lançam seus CDs neste sábado no Audio Galaxy Bar, e da Serotonina e Música de Metro, que está na fase final de produção do primeiro álbum.

À frente dos projetos, músicos que não esperaram pelas oportunidades e utilizaram a improvisação como maior ferramenta. “Nossa gravação se resume a apertar o ‘rec’. Com aparelhagem amadora, já gravamos um CD inteiro dentro do banheiro, captando o som com um gravador comum”, diz o vocalista e guitarrista da Bonequinho, Aran.

O conceito de qualidade sonora também é visto por esses músicos sob perspetivas nada convencionais. Para eles, o rústico, o dissonante e, principalmente, o estranho são as metas buscadas a cada acorde e gravação. “Muitas vezes há um descontrole de decibéis na gravação, mas é proposital, está dentro do nosso conceito de alternativo”, cita Aran.

No novo e quinto CD da banda, “Alien Totem”, punk rock, free jazz e arte experimental nortearam o trabalho dos seis músicos que se revezam entre duas guitarras, duas baterias, baixo, vozes e intervenções eletrônicas. Os nomes dos integrantes? “Não divulgamos o nome de ninguém. Queremos que a atenção esteja no trabalho e não nos componentes”, responde o vocalista.

Para a gravação, os músicos não abriram mão de tecnologias caseiras, mas incrementaram a aparelhagem com mesa de som e softwares baixados da Internet. “Ao todo, são 17 músicas, sendo que metade foi gravada em casa e a outra num estúdio de um amigo. Gravamos em um canal ao vivo, sem muita apuração técnica”, salienta Aran.

Num ambiente ainda mais rústico, foi gravado o primeiro single da Serotonina, com quatro faixas que trazem desde o rock dos anos 70 até folia de reis, num estilo denominado pelo próprio vocalista, Segal, como “Música Pra Pular Brasileira”. No quarto do músico, lençóis que desciam do teto se encarregaram de fazer do ambiente um estúdio. “Lendo e visitando outras estações, você aprende o que precisa ser feito. Como o som não estava legal, fizemos uma gambiarra com os lençóis e ‘abaixamos’ o teto”, diz.

Ao contrário do que ocorre na maioria dos gravações profissionais, em que o som de cada instrumento é captado individualmente, o vocalista e os músicos Rico (baixo e vocal), Saulo (guitarra e vocal), Eduardo (bateria), Max (percussão e voz) e Bazan (violão) tocaram juntos, com captações feitas com uma mesa de som ligada ao computador. “Não é o ideal, mas como não tínhamos os recursos necessários, muitas músicas foram gravadas em apenas um canal”, diz.

A acústica não foi problema para Bruno Guerra e Diego Bravo, que compõem a duo Strange Music, uma formação instrumental de guitarras e base eletrônica. “Como a base é eletrônica e as guitarras também, o som já sai direto no computador e só nós ouvimos por fone, sem incomodar ninguém”, diz Bruno.

No CD “For Ordinary People”, dez músicas trazem as influências de DJ Moby e do duo Daft Punk. “A proposta da banda é instrumental, mas não deixa de ser pop. São melodias compreensíveis, com um toque de estranhamento”, define Diego.

Selo

Formar uma banda e gravar um CD foram processos quase simultâneos para os grupos Bonequinho e Serotonina e Música de Metro. Para divulgar o próprio som, nada melhor do que ter o próprio selo. Assim surgiu o “Daméia”, que lança, entre outras bandas, a Serotonina; e o “Platonic(a) Music(a)”, responsável pelos projetos da Bonequinho e da Strange Music.

Com diversas apresentações em locais alternativos, como festas de república, saraus e praças públicas, os produtores dos selos agora se preparam para um novo desafio: divulgar os discos recém-gravados. “A Internet é um meio legal para mostrar nosso trabalho e disponibilizar a nossa música, mas isso ainda é um projeto”, diz o vocalista da Serotonina, Segal. A divulgação pelo meio eletrônico já é uma realidade para o “Platonic(a) Music(a)”. Algumas músicas do Bonequinho e da Strange Music podem ser ouvidas no site Trama Virtual.

Criado em 95, o “Platonic(a)” já lançou mais de cinco bandas independentes de Bauru. “O selo nunca foi algo oficial. Montamos com a idéia de divulgar a nossa banda e a de amigos”, explica o vocalista da Bonequinho, Aran. O “Daméia” também foi criado com o principal objetivo de divulgar o som da Serotonina, em 2004. Mas logo surgiram outros trabalhos, como gravações de trilhas para teatro, documentários e trabalhos de conclusão de curso.

Mais informações da Bonequinho, Serotonina e Strange Music podem ser buscadas, respectivamente, pelos e-mails: museudofuturo@gmail.com, bichosom@ubbi.com.br e projetostrangemusic@gmail.com

• Serviço

Bandas Bonequinho e Strange Music lançam CD no sábado, a partir das 23h, no Audio Galaxy Bar (avenida Duque de Caxias, 8-40). Informações: (14) 9728-1775.