Bagdá - A polícia iraquiana encontrou ontem corpos de 65 homens, a maioria com marcas de tortura e ferimentos a bala, em diferentes locais de Bagdá. Além disso, ataques com carros-bomba e morteiros mataram pelo menos 39 pessoas e feriram dezenas, num dia especialmente violento até para o histórico da capital iraquiana.
Os eventos expõem as dificuldades que as tropas americanas e iraquianas enfrentam para conter a violência sectária, mesmo com o deslocamento de 12 mil soldados para Bagdá em agosto. Na prática, a cidade está dividida em “distritos” controlados por diferentes milícias, que lutam entre si.
Segundo a polícia, 45 corpos foram encontrados em bairros com predominância sunita; 15, em regiões xiitas, e cinco, boiando no rio Tigre. Quase todos estavam amarrados, com sinais de tortura e marcas de bala - características de assassinatos por “esquadrões da morte”.
Ações do tipo, praticadas tanto por sunitas quanto xiitas, se tornaram comum desde fevereiro, quando explodiu a violência sectária após um ataque a um santuário xiita. A descoberta dos novos casos levou o líder do maior partido sunita a exigir que o premiê Nuri al Maliki, xiita, cumpra sua promessa de acabar com as milícias.
Os sunitas, que são minoria e eram privilegiados pelo regime de Saddam Hussein (1979-2003), culpam milícias xiitas pelos assassinatos e acusam o premiê de não agir contra elas. Uma das principais milícias do país é o Exército Mehdi, do popular - e radical - clérigo xiita Muqtada al Sadr.
No pior ataque do dia, a explosão de um carro-bomba numa praça matou 19 pessoas e feriu mais de 60. Noutro atentado, um carro-bomba matou 12 pessoas e feriu 34. Segundo as forças americanas que ocupam o país, os membros de milícias são cada vez mais jovens, atraídos pela possibilidade de receber salário e ganhar respeito. A tradição de “honrar” a morte de parentes também gera novos combatentes.
Também no Parlamento o clima é de desentendimento. Ontem, aliados de Sadr tentaram aprovar uma resolução com uma data-limite para a saída dos soldados estrangeiros, o que o governo não aceita.
O texto foi para uma comissão, mas o assunto que gera mais controvérsia é o projeto de lei para o estabelecimento de regiões autônomas no país. Os árabes sunitas se opõem veementemente, dizendo que a lei dividiria o Iraque em “cantões” sectários. A região onde são predominantes, o centro-oeste do país, não produz petróleo - os principais campos estão no norte, predominantemente curdo, e do sul, onde se concentram os xiitas.
Ontem, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Kofi Annan, afirmou que a maioria dos líderes do Oriente Médio lhe disse, em sua recente visita à região, que a ocupação do Iraque pelos EUA foi “um verdadeiro desastre”. Mas, segundo Annan, os líderes se dividem quanto à desocupação. No Irã, o premiê Maliki visitou ontem o líder supremo do país, aiatolá Ali Khamenei, em Teerã.
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Cobranças
Bagdá - O líder do maior grupo sunita do Iraque exigiu ontem que o governo iraquiano, conduzido por um xiita, promova ações para desarmar as milícias depois que 65 corpos com sinais de tortura foram encontrados ontem na região de Bagdá.
Dois soldados americanos também foram mortos, um deles anteontem em combate na Província de Anbar e o outro ontem por uma bomba colocada à beira de uma estrada ao sul de Bagdá, informou o comando militar americano.
Adnan al Dulaimi, que lidera o principal bloco político de sunitas do Iraque, pediu que o primeiro-ministro iraquiano, Nouri al Maliki, cumpra a promessa de desmantelar as facções armadas do país, responsabilizadas por muito sunitas por comandar esquadrões de morte.
“Nós esperamos que o governo cumpra o que prometeu, desmantele as milícias e as considere como organizações terroristas”, declarou Al Dulaimi, líder da Frente do Consenso Nacional, coalizão que detém 44 cadeiras das 275 vagas do Parlamento do Iraque.