09 de julho de 2026
Pesca & Lazer

História de pescador: O girau do Benedito


| Tempo de leitura: 4 min

Benedito foi um dos pioneiros do povoado de Jacutinga, hoje Avaí, no início do século passado. Ele tinha um pequeno sítio de culturas com 4.000 pés de café e outras plantações de subsistência.

Mas quando ele ali chegou, aquilo tudo era um mato só, pois, além da mata natural dos rios, havia uma floresta sem fim que ia para muito mais do que os olhos do homem podiam alcançar, de sorte que para construir, fixar residência e plantar era preciso antes derrubar e ainda havia os índios guaranis, terenas, coroados e caigangues em estado selvagem ou semi-selvagem. Bichos então, havia de todo tipo e tamanho, que amedrontavam e assustavam um tanto quanto.

E foi no amanhecer de certo dia que Benedito deu pela falta do único bezerro da única vaca que contribuía para a alimentação da sua família e vendo sinais de arrasto para as bandas do mato, acompanhou aquelas marcas deixadas por uma onça, indo até ao meio da mata, onde encontrou embaixo de um pé de jatobá o que restou do almoço da fera, tudo enterrado com folha do mato. “Ela vai voltar aqui”, pensou ele.

O pioneiro então retornou para o seu sítio, construiu um girau de madeira que seria amarrado pelos quatro cantos por cordas que dariam numa só e esta seria alçada por sobre um galho bem alto e, assim, como se fosse um elevador, puxaria para cima ele próprio com toda a tralha necessária para aquela que prometia ser uma longa espera. Assim ele pensou e assim ele fez.

Lá no alto do jatobá, a mais ou menos 30 metros do chão, Benedito pitava um palheiro de fumo de corda de índio para espantar as muriçocas, enquanto auscutava os arredores e de lá viu que a lua cheia já vinha bem alta. Ele estava armado até aos dentes, como diziam naqueles tempos, pois levara uma repetideira de dois canos calibre 16', mais um garruchão, também de dois canos e um facão longo para qualquer emergência, além dos cartuchos e a paciência que aquela empreitada exigia. Por todo canto, a bicharada e a passarada fazia barulho, cada qual com seu chamado, canto ou lamento.

De repente houve um silêncio nervoso. Os uivos, latidos e miados da selva se aquietaram e até os noturnos curiangos, urutaus e corujas calaram os seus bicos, fazendo com que Benedito percebesse que o momento esperado havia chegado. “Eu sabia que ela ia voltar”, pensou ele sozinho lá em cima do seu girau.

A lua atravessava os galhos do jatobá e iluminava o exato local onde estava a isca, quando o caçador viu lá embaixo uma enorme onça pintada, que chegava pisando leve e pensando estar só, passou logo a jantar o resto do seu próprio almoço. Para o caçador, era agora ou nunca...

Benedito estava cheio de ansiedade quando posicionou sua cartucheira e armou os dois gatilhos para dois tiros simultâneos, mas só agora viu que tinha companhia - uma venenosa jararaca caiçara estava com ele no girau e por um momento ficou sem saber o que fazer. Se atirasse na cobra, a onça fugiria e, se atirasse na onça, seria picado por aquele animal peçonhento.

Então Benedito usou o seu facão e com um só golpe cortou ao meio aquela víbora... e cortou também a corda do girau.

Tudo e todos desceram jatobá abaixo. Na descida, batendo pelos galhos, a repetideira repetiu diversos tiros, enquanto o girau desmontava todinho e no pé da árvore formou-se um montão de badulaques quebrados e também uma nuvem de poeira e fumaça com cheiro de pólvora. Os estampidos causaram ainda um imenso eco, que se reverberou pela mata toda, demorando a dissipar-se por aqueles ermos sem fim.

Mas Benedito já estava milagrosamente em pé, fazendo um rápido balanço do resultado da sua caçada: “Vim aqui para caçar uma onça e quase fui caçado por uma caiçara trepadeira”, concluiu ele aliviado.

O agricultor voltou naquela mesma noite para o seu sítio, deixando para trás o seu girau quebrado e o resto do bezerro que de certo foi comido pelos urubus.

Mas a onça pintada, que na certa não era boba nem nada, fugiu e deve ter contado esta história para os seus filhotes, que mais tarde contaram a mesma para seus outros filhotes, que contaram para os seus filhos e para os filhos dos filhos, porque nunca mais nenhuma onça entrou no sítio do Benedito.

Eurico de Oliveira é aposentado, pescador e contador de histórias.