Buenos Aires - A tradicional obsessão argentina pelo passado ganhou ares de “caça às bruxas” no embate político entre o presidente peronista Néstor Kirchner, aprovado por cerca de 80% da população, e uma oposição - também peronista - que tenta a todo custo se fortalecer para ter alguma chance de eleger presidente o ex-ministro Roberto Lavagna em outubro de 2007.
Kirchner fez do acerto de contas com os repressores da última ditadura (1976-1983) seu principal discurso político, aproveitando-se das feridas do regime militar para atrair a simpatia da população e para atacar adversários como os ex-presidentes Raúl Alfonsín e Carlos Menem por terem impedido a punição dos agentes da ditadura com leis e indultos.
Num país onde 30 mil pessoas desapareceram sob a ditadura, essa retórica se mostra extremamente eficaz. Em Buenos Aires, quase todos perderam um parente ou amigo. Ontem e anteontem, a oposição ameaçou Kirchner com o mesmo veneno: deputados lavagnistas disseram poder revelar o passado de membros do governo, inclusive Alicia Kirchner (irmã do presidente e ministra do Desenvolvimento Social), Felisa Miceli (ministra da Economia) e o chanceler Rafael Bielsa. Todos teriam ocupado cargos públicos sob o regime.
Foi uma reação ao fato de que, no fim de semana, chegou aos jornais a notícia de que o deputado Juan José Álvarez, ex-aliado de Kirchner e hoje lavagnista, atuou como agente da Secretaria de Inteligência de Estado (Side) na ditadura. A informação teria vindo do governo.
O caso acaba de chegar à Justiça, que julgará se houve crime de violação de segredo de Estado, pois os arquivos inteligência da ditadura não são públicos - Kirchner, apesar do discurso da revisão do passado, não abriu as fichas.
Segundo a imprensa local, o presidente usa as informações dos relatórios para pressionar opositores. Outro oposicionista, Luis Abelardo Patti, acusado de ter sido torturador, foi eleito deputado em outubro último com quase 400 mil votos, mas impedido por kirchneristas de tomar posse. Em maio, a Câmara decidiu, por 164 votos a 62, que ele não tinha “idoneidade moral” para ser membro do órgão. Hoje, porém, o órgão máximo da Justiça Eleitoral argentina decidiu que Patti tem direito a assumir. Ainda cabe recurso na Suprema Corte do país.