09 de julho de 2026
Cultura

Júri acerta com ‘Cinema, Aspirinas e Urubus’

Por Gabriel Jareta | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 3 min

Desde que foi divulgada a lista com os 14 longas brasileiros aspirantes a uma vaga na categoria de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar 2007, dois se sobressaíram nas apostas da crítica: “Zuzu Angel”, de Sérgio Rezende, e “Cinema, Aspirina e Urubus”, de Marcelo Gomes. Na tarde de ontem, o júri do Ministério da Cultura fez a escolha certa ao eleger o segundo.

“Cinema, Aspirina e Urubus” é uma daquelas raras e felizes coincidências que o cinema brasileiro produz de quando em quando. Filme independente, de baixo custo e filmado sem concessões ao gosto do público médio, foi visto por 120 mil espectadores no Brasil. A maioria deles, presume-se, levada pela crítica especializada e pelo boca-a-boca de quem por acaso viu e gostou.

Ao contrário do concorrente direto, o filme de Marcelo Gomes retrata um tipo de Brasil mais próximo da realidade - não só a do sertão, mas da aridez da produção cinematográfica brasileira. Ao mesmo tempo em que propõe caminhos, dialoga com elementos do Cinema Novo e com o road-movie, artigos tão caros aos cineastas brasileiros. Vale lembrar que o filme brasileiro que mais próximo chegou de levar um Oscar da categoria também era um road-movie no sertão: “Central do Brasil”, de Walter Salles, em 1999.

A história de “Cinema...” gira em torno do encontro entre o alemão Johann (Peter Ketnath) e o sertanejo Ranulpho (João Miguel) no Nordeste brasileiro em 1942. Enquanto a guerra assola a Europa, Johann percorre o sertão em um jipe. A cada cidadezinha ele pára, monta um mini-projetor de cinema com propagandas de Aspirina e, ao final, vende os comprimidos para os sertanejos.

Numa dessas estradas empoeiradas, o alemão dá uma carona a Ranulpho e tem início uma história de conhecimento, coexistência e camaradagem. Além da narrativa intimista, que valoriza os sentimentos entre os dois novos amigos, os trunfos de “Cinema...” se devem ao ator João Miguel - um verdadeiro achado - e uma fotografia do sertão diferente de todas do cinema colorido. Desta vez, a aridez não é protagonista, mas um personagem a mais.

Para os intricados e nem sempre claros desígnios do júri de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar, essa mistura original feita por Marcelo Gomes deve sair à frente de uma tentativa de cinema mais comercial. E, teoricamente, o Oscar deve premiar não só uma história bem filmada, mas a perspectiva de futuro dos cinemas falados em língua não-inglesa.

Isso porque “Zuzu Angel” teve uma boa recepção, mas, apesar do cuidado com que foi contada a história valorosa da personagem título, é mais um representante do cinema globalizado, feito para agradar em festivais comerciais e para atrair um público adaptado ao gosto televisivo. Algo semelhante ao blockbuster “2 Filhos de Francisco”, de Breno Silveira, indicado como representante do Brasil ao Oscar no ano passado, mas que sequer ficou entre os cinco finalistas.

No caso de “Cinema...”, levar ou não a estatueta no ano que vem não traria mudanças radicais na estrutura da indústria cinematográfica brasileira, mas faria justiça a um dos mais belos e inovadores filmes brasileiros dos últimos anos.

O filme, que contou com a parceria de Karim Aïnouz no roteiro, concorreu com outros 12 longas enviados à Secretaria do Audiovisual do Ministério até o dia 11. Foram eles: “A Máquina”, “Anjos do Sol”, “Bens Confiscados”, “Cafundó”, “Depois Daquele Baile”, “Doutores da Alegria”, “Estamira”, “Irma Vap - O Retorno”, “O Maior Amor do Mundo”, “Tapete Vermelho”, “Vida de Menina” e “Zuzu Angel”.

As indicações ao Oscar serão feitas em 23 de janeiro, e a cerimônia de entrega dos prêmios será realizada em 25 de fevereiro. A comediante Ellen DeGeneres será a apresentadora da 79.ª edição do Oscar.