09 de julho de 2026
Cultura

Ary Fontoura no ataque

Diego Molina
| Tempo de leitura: 5 min

São 73 anos de idade, 56 anos como ator e mais de 40 na TV. Tal experiência dá crédito e estofo a Ary Fontoura para escolher muito bem seus projetos e imprimir, em produções próprias, humor e crítica à realidade brasileira que conhece tão bem. Defensor ferrenho das comédias, ele traz a Bauru o espetáculo “Marido de Mulher Feia Tem Raiva de Feriado”, no qual atua, dirige, escreve, cuida da trilha e da cenografia.

Em entrevista ao JC Cultura, Fontoura destaca que a peça apresenta um lado tragicômico da vida, em um gênero no qual ele diz “funcionar” muito melhor do que em qualquer outro. “É o que ando perseguindo, são mais de 12 anos fazendo somente comédias, dos personagens mais variados”, diz.

Ele define “Marido” como um exercício – provavelmente, mais uma batalha. “Sou responsável pela direção, cenografia, trilha, assinei o trabalho com meus pontos de vista - tudo em cima dessa responsabilidade. O resultado vem sendo excelente, me sinto gratificado. Completamos 250 apresentações em Bauru, em mais de 9 meses”, afirma. Como diretor, Fontoura se diz rígido. “Costumo levar o espetáculo completo então mantenho uma rigidez absoluta. Quero que tudo seja como na estréia”, completa.

No texto, que ele assina com Paulo Afonso de Lima, o ator e diretor defende um retrato do Brasil com esperança de um País melhor. “O espectador é convidado a rir de suas próprias tragédias e raciocinar sobre a política brasileira. É uma tentativa de recuperar o romantismo, já que todos os personagens são perdedores e querem levar vantagem, mas têm sua lição”, afirma.

Mesmo evitando incutir discussão política na comédia e deixar o espetáculo “pesado”, Fontoura frisa que seu personagem principal, um bicheiro que vive de falcatruas, encaixa-se perfeitamente no atual governo. “Isso tudo é colocado de maneira muito engraçada, pois a comédia é a tragédia dos outros, mas rimos de nós mesmos”.

Com voz firme e conhecida de tantos papéis, ele prossegue com as críticas: “Até agora, não achei um presidente bom, nenhum foi satisfatório. Essa situação toda que vemos, de corrupção, não é de agora, somente veio à tona. Não defendo esse governo porque sou contra um governo que busca voto na política da fome. Está muito difícil escolher alguém bom, vai ter que ser dos piores o melhor”, ataca.

Opções

Integrante do elenco de 43 novelas e um sem-número de seriados, especiais e humorísticos, Ary Fontoura enxerga a TV como parceira, que leva o público que já conhece seu rosto e seus tipos ao teatro para reencontrá-lo. No entanto, há críticas para o veículo. “Na TV você nunca tem projetos, eles é que têm projetos para você. Mas esse ano estou de folga, me convidaram para algumas coisas e não aceitei”, diz.

Seus últimos trabalhos na Rede Globo foram a novela “Chocolate com Pimenta” e o infantil “Sítio do Pica-Pau Amarelo”. Do segundo, ele conta que pediu para sair. “Quando me convidaram, a finalidade era excelente, era criar uma platéia. Mas a atração foi se deteriorando em função da emissora não dar o respaldo suficiente. O ‘Sítio’ acabou virando um adendo (do programa) da Xuxa. Pedimos à direção que nos colocasse à tarde, por volta de 17h, a audiência cresceria, mas nunca conseguimos. Pedi para sair”, revela.

Já no teatro, Fontoura diz não ter preconceito para qualquer tipo de personagem. “Na TV, tem certas coisas que a gente não sabe fazer, certos trabalhos que não se encaixam, como um chapéu numa cabeça. Já no teatro, nunca tive preconceitos, me profissionalizei porque queria viver dessa profissão. A partir do momento em que comecei a produzir, me libertei um pouco para escolher o que queria fazer e fazer com prazer”, aponta.

Por outro lado, a produção teatral traz responsabilidades e preocupações ao ator e diretor. “A produção no Brasil é dificílima, o teatro nunca foi a primeira meta do governo – na verdade, nenhum dos setores culturais. É o caso da política do (ministro da Cultura) Gilberto Gil, que é negativa sob todos os princípios: para quem faz, produz, de quem está envolvido”, elenca.

E cercado por tanta corrupção, escândalos políticos para difamar um ou outro e falta de opção de candidatos que representem com dignidade os brasileiros, é possível escrever comédia sobre falcatruas e não se sentir triste? “Se me sinto como um cidadão triste... É, mas quem não se sente? Quem se aliena não é um bom cidadão, não tem amor a seu país. Felizmente, o povo parece querer prestar mais atenção ao que vem acontecendo. Faço comédia para rir, com o objetivo de fazer as pessoas esquecerem agruras. Na vida, tudo tem um lado trágico e outro engraçado”, responde.

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Uma peça dentro da outra

Em um subúrbio do Rio de Janeiro, o bicheiro Macedão (Ary Fontoura) quer enganar sua amante, Paraguaçu (Luciana Coutinho, de “Zorra Total”), ao montar para ela um espetáculo fadado ao fracasso. A moça tem o sonho de alcançar o estrelato e o malandro quer mesmo é mantê-la longe dos holofotes.

Em “Marido de Mulher Feia Tem Raiva de Feriado”, Fontoura encaixa “uma peça dentro da outra”, como ele mesmo explica. “O nome mesmo da peça pouco traduz o que é a história, que é uma tragicomédia onde as pessoas riem de seus próprios problemas”, comenta. Além do casal, integram a loucura o advogado e capacho de Macedão, Vieira (Eduardo Rieche), um diretor de teatro mal sucedido, Beto (Joseph Meyer) e a autora teatral decadente Emengarda (Amélia Bittencourt).

Para “realizar o sonho” de Paraguaçu e acabar de vez com qualquer chance da moça de alcançar fama como artista, Macedão contrata uma péssima autora teatral e um diretor ruim para montar uma peça homônima a um grande sucesso.

De acordo com o material de divulgação, a montagem é inspirada na história da rainha espanhola Carlota Joaquina e na sua relação, um tanto conflituosa, com seu marido, dom João VI. O rei, cansado das traições da esposa, baixa um decreto no qual proíbe feriados, daí o título da peça. A comédia tem direção, cenários e trilha de Ary Fontoura, figurinos de Daisy Vitória, iluminação de Berilo Nosella e pesquisa de Joseph Meyer.

• Serviço

Comédia “Marido de Mulher Feia Tem Raiva de Feriado”, hoje às 21h e amanhã às 20h no Teatro Municipal Celina Lourdes Alves Neves (avenida Nações Unidas, 8-9). Recomendação: maiores de 12 anos. Ingressos a R$ 40,00 e R$ 20,00 (meia-entrada para estudantes, maiores de 60 anos e professores da rede pública). Mais informações: (14) 3018-5091 e 3235-1072.