08 de julho de 2026
Geral

Adolescentes cobram mais limites

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 3 min

Criança é assim mesmo. Ela quer chamar a atenção. Quando crescer, essa fase passa. Quantos pais já não ouviram essas frases quando os filhos saem por aí aprontando das suas? A falta de limites no comportamento das crianças chegou a tal ponto que até os jovens e adolescentes, que normalmente são mais tolerantes, estão se sentindo incomodados.

De acordo com um estudo feito pelo Ibope Mídia, 74% dos entrevistados, com idade entre 12 e 17 anos, consideram que a falta de limites é o grande problema das crianças hoje em dia. Será que isso significa que os jovens e adolescentes de hoje serão pais conservadores amanhã? Para a psicóloga Hermínia Maria Lopes de Souza, não necessariamente.

“É um conservadorismo entre aspas”, diz ela. “Acredito que é mais uma questão de aprendizagem. Eles dizem ‘se comigo (estabelecer limites) funcionou, com os outros também vai funcionar’.” Na avaliação dela, o julgamento que os jovens e adolescentes fazem das crianças de hoje é baseado no que eles viveram no passado. “Eles pensam assim porque, enquanto crianças, eles tinham limites.”

De acordo com a pesquisa, as meninas são um pouco mais tolerantes com a questão da falta de limites entre as crianças. Enquanto 77% dos meninos se disseram incomodados com isso, o percentual entre as meninas foi um pouco menor: 71%.

Segundo Hermínia, é possível concluir, com base no estudo do Ibope, que “provavelmente esses jovens e adolescentes serão melhores pais do que os pais de hoje”. Na opinião dela, eles têm noção de como as coisas devem funcionar para que haja uma ordem.

O psicanalista Wilson Andrade também acredita que o liberalismo hoje é maior no relacionamento entre pais e filhos. Por isso, está difícil controlar o impulso das crianças. “Antes, os pais se impunham mais”, afirma ele. No entanto, faz uma ressalva. “Não podemos generalizar isso. Nem todas as crianças estão sendo educadas sem limites”, pondera.

Embora considere o público ouvido pelo Ibope ainda muito novo para uma opinião sobre o comportamento das crianças, Andrade não deixa de concordar com ele. “Eu acho que está faltando mais compreensão e educação. Os pais precisam conversar mais com os filhos”, aponta.

Na avaliação dele, certos valores, como a educação, foram negligenciados no passado e agora está refletindo nas crianças, que são as principais vítimas. “Existe uma diferença enorme entre a educação de 40 anos atrás e a de hoje”, relembra. “Naquela época, os limites eram mais compreendidos e aceitos pelas crianças, hoje a maioria é rebelde”, compara.

O estudo do Ibope foi divulgado no final de agosto, durante a programação do IV Festival de Publicidade do Nordeste. A apresentação foi feita pela gerente da filial do Ibope Mídia em Recife, Tereza Prestrelo. Em entrevista ao JC, ela destacou que o estudo não aponta as razões que levaram 74% dos jovens e adolescentes a classificar a falta de limites como o principal problema entre as crianças. “Para descobrir isso, teria de ser feito um estudo próprio, que aprofundasse essa questão.”

Segundo ela, as informações colhidas passam a fazer parte do banco de dados do Ibope e ficam à disposição dos assinantes, em sua maioria empresas de publicidade. O banco é abastecido pelo menos duas vezes por ano com temas variados, que vão desde os hábitos de consumo ao lazer.

A pesquisa

O estudo divulgado em agosto pelo Ibope ouviu 16.700 brasileiros na faixa etária de 12 a 17 anos entre os meses de julho e dezembro de 2005. O objetivo da pesquisa é traçar o perfil de consumo e comportamento dessa faixa etária e, com isso, orientar estratégias de marketing e publicidade de produtos direcionados a esse público.

De acordo com o Ibope, os jovens na faixa dos 12 a 17 anos representam 15% do contingente populacional dos 11 mercados pesquisados pela Target Group Index – responsável pelo estudo. Foram ouvidos jovens que vivem nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Curitiba, Brasília, Salvador, Recife e Fortaleza, além de cidades de porte médio do Sul e Sudeste.