Em iniciativa inédita, a Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH) “adotou” o filme “Anjos do Sol”, do gaúcho Rudi Lagemann, como longa oficial para a campanha contra a exploração sexual de crianças e adolescentes. A obra ganhou este ano cinco Kikitos no Festival de Gramado (melhor filme, roteiro, montagem, ator principal para Antônio Calloni, coadjuvante para Otávio Augusto e Mary Sheyla) e o prêmio do Júri Popular no Festival Internacional de Miami, onde estreou. Sob a bênção do governo e de organizações não-governamentais, o filme ganha um País que vai além do circuito comercial.
Não que o filme não tenha feito sucesso comercial para os padrões brasileiros. Lagemann conta que seu filme de estréia já foi visto por mais de 60 mil pessoas, num País em que, à exceção de algumas superproduções, entre elas filmes de Xuxa e Renato Aragão, os longas nacionais normalmente não chegam a 5 mil espectadores. Mas a maior novidade em sua divulgação está nesse circuito alternativo - e educativo.
Na semana passada, por exemplo, a reportagem acompanhou sua exibição para as cúpulas operacionais da Polícia Rodoviária Federal de todo o País. Policiais quase às lágrimas fizeram declarações comovidas, dizendo-se mais motivados para seguir no combate ao crime - o último levantamento da PRF detectou nada menos que 1.222 pontos potenciais de exploração sexual nas rodovias federais.
O autor Rudi Lagemann, radicado há 20 anos no Rio, deu à protagonista - uma menina de 12 anos vendida pelos pais para o crime sexual organizado - o nome de sua filha, Maria, de 9 anos. Diretor de filmes publicitários, ele baseou seu primeiro longa-metragem em reportagens jornalísticas. A cena sobre leilão de meninas virgens, por exemplo, foi extraída de notícias publicadas tanto em Pernambuco como no interior de São Paulo. Confira a entrevista com o diretor.
Jornal da Cidade - Como você analisa essa divulgação extra-comercial de seu filme?
Rudi Lagemann - Essa relação com organizações não-governamentais e governo surgiu um mês antes do lançamento do filme. O pessoal das ONGs assistiu em alguma pré-estréia e veio conversar conosco, sobre como poderiam utilizá-lo, porque não tinham nada desse tipo que fosse um instrumento para seu trabalho. E eu sempre me perguntava: será que o pessoal que trabalha nessa área vai legitimar o filme? Será que eu correspondi à realidade em que eles atuam? Então foi gratificante. Já tinha enviado o filme à senadora Patrícia Saboya (PSB-CE), que foi presidente da CPI da Exploração Sexual, e ela já tinha dito que o filme foi um relato preciso e sensível. A palavra “preciso” foi muito importante para mim. Do lado comercial, isso não pesa nada, não traz público novo. Essas pessoas atuam em área onde nem tem cinema, muitos municípios que nem têm locadora de vídeo/DVD. Então é genial que o filme chegue lá. Outra coisa é: quando você ganha um concurso do Estado, como eu ganhei, o que dá de volta? Uma cópia em 35mm e uma cópia em Betacam digital, para usarem nos eventos deles. Só que o Ministério da Cultura usa muito pouco. Quando o Ministério da Justiça, a Secretaria de Direitos Humanos veio conversar, junto com essas organizações, para fazer um acordo para utilizar o filme, eu disse: vocês têm de entrar em acordo com o próprio Ministério da Cultura. Para a gente não há nenhum retorno financeiro, porque já houve um investimento do Estado quando eu ganhei o concurso. Esse lado é muito bom, porque vê que o filme vai ter uma função social, além de ser um produto cultural. Como cidadão, me sinto plenamente feliz.
JC - - Qual tem sido a reação do público, por exemplo dos policiais que assistiram ao filme?
Lagemann - Eles convivem nesse universo, mas não têm todas as pontas atadas. Cada um só tem um pedaço. O jornalista Gilberto Dimenstein disse que quando assistiu às cenas da boate sentiu suor no braço, pois ela era a mesma de quando ele foi, em sua pesquisa que resultou na série e no livro “Meninas da Noite”, no início dos anos 90. Senti-me super-lisonjeado, porque a equipe conseguiu reconstituir uma realidade. O filme dá todas as pontas para setores diversos que trabalham com essa realidade. O policial comentou: a gente vai lá na delegacia e está uma menininha ali. (Refere-se a relatos de que delegados costumam emitir frases preconceituosas em relação às adolescentes exploradas sexualmente). Claro, uma menininha que já dormiu com 500 homens naquele ano tem um determinado tipo de comportamento que não é o de uma filha que fica ali sentadinha, toda bonitinha. É uma menina que se relaciona com o mundo de um modo bem diverso. Então quando ele vê em um filme desses de onde essa menina vem, ele vê de onde é a origem do problema. Isso é importante. E eles também vão utilizar o filme, vão sensibilizar os colegas, aqueles que têm o sentimento mais primitivo, mais retrógrado, que a solução tem que ser na porrada, que acham que as meninas se oferecem mesmo.
JC - - O que te emocionou mais na reação do público, nas sessões que você acompanhou?
Lagemann - Tem pessoas que trabalham em organizações não-governamentais, não ONGs para ganhar dinheiro, que têm um trabalho missionário. Você não acredita. Eu digo: esse é um brasileiro? Você fica até desconfiado... A Marlene, da Bahia, é um referencial, me disse que é o primeiro trabalho audiovisual que ela viu que, independente de ser ou não jornalístico, que ela assina embaixo, pois é exatamente a realidade da qual ela cuida há 40 anos. É consultora da Partners of America. Está trabalhando com caminhoneiros, viaja pelo interior da Bahia, fica uma semana viajando com o sujeito e levantando pontos onde isso acontece. Outra pessoa foi o doutor Lauro Monteiro, presidente da Associação de Proteção à Infância e Adolescência, que foi a primeira organização a cuidar disso. É um medico pediatra. Em função de ele ter testemunhado muito isso, criou a organização para tratar das meninas e da família. Quando viu, se tornou um parceiro. Só por isso já valeu a pena ter feito o longa.
JC - Você acha que os diretores brasileiros deveriam dar mais retorno à sociedade?
Lagemann - O cinema mundial e brasileiro tem três vertentes muito fortes. Você tem a chanchada, que vem desde os tempos da Atlântida. No início dos anos 50 começa o cinema social, muito baseado no neorrealismo italiano, passa por Nelson Pereira dos Santos, com “Vidas Secas”, depois tem “Rio 40 Graus”, “Pixote”, “Cidade de Deus”, tem vários filmes numa vertente onde se inclui o “Anjos do Sol”. E tem os filmes-cabeça, herméticos. Desde “O Limite”, de Mário Peixoto, que passa por Glauber Rocha, pelo cinema marginal e hoje tem o Julio Bressane ainda atuando. É genial ter essa diversidade. Você não pode cobrar, senão vira um cinema de Estado, e não autoral. Eu fiz esse filme, mas não sei como meu segundo vai ser. Trabalho em dois projetos, onde um deles é um tema polêmico, mas não social. Tenho uma complicação é com a utilização do dinheiro público. Você não tem no Brasil uma efetivação da indústria cinematográfica. Ela depende do incentivo. Não é ilegal, porque tem agricultura, mineração, papel da imprensa subsidiados. Mas é uma questão moral, de você sustentar toda uma área de atividade, como o cinema. Aí é que eu tenho um problema. No caso do filme, era um concurso público, nem era incentivo. Tinha 200, três ganharam. Dar um retorno para o Estado me deixa feliz. Mas não é uma obrigação, não acho que os outros dois filmes tenham de fazer isso. Tem de entregar os filmes honestos, utilizar o dinheiro público de forma honesta.