O milagre da televisão exibe-nos situações que muitas vezes passaríamos a vida toda sem vê-las. Quanta gente nunca viu e talvez nunca venha a ver, em presença, as cataratas do Iguaçu. Muito antes de estar no roteiro turístico, quando só desbravadores chegavam até lá, o poeta Silveira Neto, um dos raros privilegiados, assim a descreveu: “A quase três quilômetros de distância começa-se a ouvir o rumor das cachoeiras. Com a curiosidade aguçada e a imaginação ardente, parecia então que a floresta se dilatava ao impetuoso impulso daquele rumor, que a tudo avassala, em verdadeiro delírio de ondas sonoras. Mas chega-se e a expectativa é ultrapassada num ímpeto ao colimarem-se os primeiros borbotões das águas, que se despencam de alto abaixo, num fragor medonho, prolongado, indefinido, qual se de montanhas que desmoronassem. A água se arroja pelas bordas do rochedo, fremente de insânia, em cachões, espadanando pelas saliências e tabuleiros das rochas, talhadas estas em muros colossais, ou bifurcando-se por escaninhos e desvãos, quando não se convulsionam em largo lençol bramindo, que turbilhona algodoado de espumas até a beira do abismo.” E esse deslumbramento do poeta como as lindas visões mostradas tantas vezes pela televisão, transformaram-se, dias atrás, num triste espetáculo, com chorinhos d’água escorrendo entre as rochas expostas. O lago de águas turbilhonantes e perigosas virou um pacato riacho, com pessoas pulando sobre as pedras.
A bacia amazônica, sempre vista e descrita como uma imensidão de mata e água, de rios caudalosos, recentemente exibiu o triste espetáculo de seus igarapés transformados em estradas de areia. E o lado ruim dessas duas situações é que não foram fenômenos atípicos, que talvez raramente se repitam, mas a sinalização de que começa a acontecer com os grandes rios o que de há muito vem acontecendo com os rios menores. O desmatamento para formação de lavouras e pastagens ou exploração de madeira e lenha, sempre chegou até as margens dos rios. Os cafezais, como agora os canaviais e as roças de milho e soja, não deixam sequer uma árvore à beira dos rios. Vêm as chuvas, que encontrando a terra desnuda, em vez de infiltrarem-se para abastecer os lençóis d’água, formam erosões e arrastam a terra para os rios, assoriando-os e matando as nascentes. Rios antes caudalosos e piscosos viraram riozinhos que não dão nem lambaris.
O descalabro não para por aí. Nas cidades e povoados os rios viraram escoadouros de lixo e esgoto. Os rios que cortam as cidades são formados por um líquido escuro, imundo, malcheiroso e tóxico, transportando toda espécie de lixo doméstico e efluentes industriais. Uma propaganda, muito criativa, mostrava uma doméstica jogando lixo no rio que passava perto de sua casa e depois uma enchente devolvendo o lixo pela sua janela. Pena que dava a impressão de que a falta de uma consciência ecológica era apenas das pessoas pobres, que moram nas periferias. Mas, infelizmente, é generalizada e muito acentuada nas empresas que corrompem a fiscalização e agridem o meio ambiente, exaurindo seus recursos sem a preocupação de renová-los e sufocando a sua recuperação espontânea pelo despejo de substâncias contaminantes e não degradáveis. E enquanto os rios vão sendo poluídos, as matas continuam sendo devastadas pelas madeireiras e pelos fabricantes de carvão. O esforço incansável de ecologistas e iniciativas do governo, como a das microbacias, não são suficientes para conter a agressão à natureza. É assim que os rios vão secando, o efeito estufa aumentando e a Terra caminhando para a esterilidade da Lua e de Marte. O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru