Nascido em Capivari (SP), em 27 de setembro de 1897, só por volta de 1923 o poeta Rodrigues de Abreu adotou Bauru como sua cidade e aqui fez a sua literatura efervescer. Considerado pela crítica como uma das mais perfeitas celebridades de sua época, na área poética, desafia o tempo com a sua literatura universal. Capaz de comover os mais áridos espíritos, Rodrigues de Abreu permanece vivo, forte e presente em nossos dias, como um metal precioso ou um diamante dos mais caros e preciosos pela sua perfeição.
Há quem diga que Rodrigues de Abreu perambula pelas ruas de Bauru, espargindo a sua poesia, o seu encanto, a sua beleza de verbo, o seu encanto de artista e homem consagrado, desses que leva no peito a formosura dos versos e na fronte a sabedoria beneditina. Há, pois, de situar Rodrigues de Abreu como um dos grandes, entre as cintilantes estrelas de quinta grandeza. E foi autêntico e fiel aos seus princípios e, com a sua nobreza, conquistou Bauru e cantou esta cidade que ele dizia ser de espantos.
Rememorar o poeta, avivando a sua memória, talvez seja a paga que lhe ofertamos pelo muito que ele produziu em bondade e literatura. Serve, a nós todos, como alento e como um exemplo edificante de pessoa, de bravura, de luta e de sinceridade. Poderia ter produzido muito mais, se a doença não lhe tivesse interrompido o seu caminhar, como bem disse Manuel Bandeira que, também, na mocidade, fora tuberculoso.
Se academias literárias não deram entrada a Rodrigues de Abreu, ofuscando o seu brilho intenso de poeta e artista, os amigos, admiradores e pesquisadores jamais esqueceram da figura belíssima e humana, que por obra do destino apontou na Bauru fervilhante dos anos 1920 – Eldorado da Noroeste, até hoje a nos causar espantos pelo arrojo de sua gente.
Olvidado, assim, pelas instituições literárias, muito embora vendo nele a grande esperança nacional nas artes poéticas, Rodrigues de Abreu peregrinou, contagiando a todos com sua beleza artística e singeleza de homem culto, dotado de virtudes ímpares e de bondade extremosa. O poeta capivariano-bauruense soube cativar a simpatia dessa gente feliz e, na sua filosofia de vida, retribuiu nas manifestações de verso e prosa.
Embora o desalento amoroso o envolvesse com tênua brisa, o poeta continuava a produzir os seus bons frutos literários. Participando ativamente da vida bauruense, encontrava ânimo suficiente entre as palavras alentadoras dos amigos, que não o poupavam de elogios merecidos. Isto funcionava como uma mola propulsora, capaz suficientemente de proporcionar o real estrelato do vate sonhador. Em pouco tempo de aparecimento do livro “A Sala dos Passos Perdidos”, o seu nome ganhava manchetes. Os jornais do Interior, da Capital e, especialmente, da região da Noroeste, estampavam os seus versos e a crítica buscava espaços na imprensa para elogiar o trabalho desenvolvido pelo poeta.
Tamanha foi a empolgação sobre a sua obra que passaram a tratá-lo como uma das maiores figuras da poesia brasileira que recebera de Tagore o seu misticismo; de Hamsun, a espiritualidade; de Bilac, o patriotismo; de Nobre, o sentimentalismo e de Whitman, a humildade. Tornou-se centro das atenções e a imprensa não lhe poupava em saber do seu pensamento, de sua ação, de seus próximos lances, de suas idas e vindas.
É verdadeiramente importante que se produza obras de estudos sobre a personalidade de Abreu, a fim de podermos observá-lo em todos os ângulos possíveis e imagináveis, como assim o fizeram os americanos na figura de Walt Whitman, de quem Rodrigues de Abreu sofreu influência na beleza e delicadeza de seus versos líricos. Não foi sem razão que Silveira Bueno, em magnífico estudo sobre a personalidade de Rodrigues de Abreu, o situou entre os grandes do universo, elevando-o aos píncaros dos clássicos de todos os tempos.
Ainda desconhecemos a produção exata dos seus trabalhos, o que sempre tem nos causado embaraços, quando a citação fica tão somente restrita à “Sala dos Passos Perdidos” e à “Casa Destelhada”. A poesia espiritual que Rodrigues de Abreu produziu, ao lado de peças teatrais, necessita de mais uma pesquisa intensa e busca incansável para colocá-la no rol das grandes estrelas da literatura brasileira – o que seria justo a se deparar com o conteúdo que já conhecemos.
Ao que pese o desconforto e o desconhecimento generalizado do trabalho artístico de Rodrigues de Abreu, o seu nome ainda brilha intensamente nos olhos da crítica sempre feroz ao que se produziu na história poética do século passado. E quanto foram e são os seus seguidores literários e os seus admiradores de sempre. Foi, na expressão de muitos dos seus contemporâneos, um caso atípico de amor às artes. Produziu, com sofreguidão, trabalhos de alto valor. E quem não conhece a delicadeza destes versos que espelha a sua própria existência, quando ele falava da “Casa Destelhada”.
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Casa Destelhada
“A minha vida é uma casa destelhada
por um vento fortíssimo de chuva.
(As goteiras de todas as misérias
estão caindo, com lentidão perversa,
na terra triste do meu coração).
A minha alma, a inquilina, está pensando
que é preciso mudar-se, que é preciso
ir para uma casa bem coberta...
(As goteiras estão caindo,
lentamente, perversamente
na terra molhada do meu coração).
Mas a minha alma está pensando
em adiar, quanto mais, a mudança precisa.
Ela quer muito bem à velha casa
em que já foi feliz...
E encolhe-se, toda transida de frio,
fugindo às goteiras que caem lentamente
na terra esverdeada do meu coração!
Oh! a felicidade estranha
de pensar que a casa agüente mais um ano
nas paredes oscilantes!
Oh! a felicidade voluptuosa
de adiar a mudança, demorá-la,
ouvindo a música das goteiras tristes,
que caem lentamente, perversamente,
na terra gelada do meu coração!”.