08 de julho de 2026
Auto Mercado

Dr. Automóvel: A moda off-road

Consultor: Marcos Serra Negra Camerini*
| Tempo de leitura: 4 min

A vida atual é cheia de modismos. Alguns “formadores de opinião” lançam idéias e uma multidão os segue só para “ficar na moda”. Isto vale para o vestuário, acessórios, gírias e um montão de coisas. A novela lança um penteado diferente e, no dia seguinte, já tem gente usando o mesmo corte, independentemente de ficar bem nela ou não. Este comportamento também vale para os carros. Se uma empresa se dá bem com uma determinada novidade, logo surgem outras aproveitando o filão.

Nosso mercado fora-de-estrada até pouco tempo era muito carente de verdadeiros jipes, como os Willys, Toyota Bandeirante e Engesa. Somente há pouco tivemos a chegada da Troller e Mitsubishi, com verdadeiros 4x4, logo seguidas pelas gigantes Ford e GM, com suas Ranger e S10. A Toyota se modernizou radicalmente lançando a Hilux; veio então a Nissan com a Frontier e, em breve, chegará a Agrale com o Marruá.

Todos estes são verdadeiros fora-de-estrada, para uso pesado, com tração 4x4 de verdade, reduzida, suspensão reforçada de longo curso e feitos para agüentar o que vier pela frente ou por baixo. Mas, devido aos equipamentos e tecnologia, são veículos caros e específicos.

Alguém percebeu que muita gente compra um 4x4 para ir ao shopping, nunca usa a tração e com isso acaba dirigindo quase um caminhão na cidade só pelo aspecto. E teve a idéia de pegar carros de passeio, apenas com tração dianteira, levantar alguns milímetros a suspensão, pendurar um monte de acessórios desnecessários e dizer que são “off-roads” preparados para dar mais adrenalina em suas aventuras de fim de semana. Caramba, será que todas as outras marcas que produzem verdadeiros 4x4 investiram dinheiro à-toa?

Não, na verdade as montadoras estão certas. Nós é que estamos errados. Enquanto houver quem quer comprar, haverá quem tem para vender. E o povão quer aparência, mostrar o que não é. E ter um “off-road urbano” dá status, passa a idéia de que o cara é aventureiro, descolado, jovem, sei lá. E como ele não vai mesmo enfrentar um lamaçal de dar medo ou erosões tipo voçoroca em sua vida, este tipo de carro até que serve. Gosto é gosto e eu respeito.

Mas lembre-se que este tipo de carro nada mais é do que aquele que você tem na cidade, com os mesmos motores, câmbios e trações dianteiras originais. E que pode até mesmo andar com um pouco mais de desenvoltura em estradas de terra devido aos pneus e ao aumento de altura da suspensão, raspando menos o assoalho no chão. Mas é só.

No mais, onde passa um, passa o outro. E não se iludam com a propaganda, geralmente cheia de cachoeiras e matas fechadas. Os ângulos de ataque e de saída são basicamente os mesmos, assim como o carro não tem preparação nenhuma (ou mínima) contra pedras e batidas mais sérias por baixo. Os pneus, quando muito, são de uso misto, mais adequado ao asfalto do que para lama.

Minha intenção não é desfazer de quem tem um carro destes, mas alertá-los de que não se trata de um veículo preparado para fazer trilhas ou aplicações mais severas. É o ideal para ir ao sítio ou à praia, pegar uma estradinha de terra com lama rasa e não mais do que isso. Se enfrentar uma rampa de grama molhada, não adianta nem rezar. Sem tração nas quatro, não sai mesmo. E com os buracos, tenha os mesmos cuidados que toma com seu carro hoje, na cidade.

Vemos na televisão propagandas mostrando os “off-road urbanos” com desenvoltura atravessando riachos, estradas enlameadas e corcoveando na buraqueira... Cuidado com a euforia, que não é bem assim. Qualquer carro passa por uma enchente de 30 centímetros de água ou pega um barrinho leve. Não abuse pensando que é um jipe!

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Sugestões para a coluna e perguntas à seção Correio Técnico devem ser enviadas ao e-mail automerc@jcnet.com.br ou à redação do Jornal da Cidade, na rua Xingu, 4-44, Higienópolis. É obrigatório informar nome completo, RG, endereço e contato (telefone ou e-mail).

* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e assina uma coluna na revista Quatro Rodas Nitro. Seu site é www.marcoscamerini.com.br.