09 de julho de 2026
Cultura

Memórias de um labrador

Da Redação
| Tempo de leitura: 3 min

O que leva uma pessoa a amar um ser que destrói seus chinelos, utensílios e móveis? Exatamente suas trapalhadas e o amor incondicional que um cão, e somente um cão, pode oferecer. Esse é o mote de um dos maiores best sellers do ano, “Marley & Eu - Vida e Amor ao Lado do Pior Cão do Mundo” (Prestígio Editorial), do jornalista americano John Grogan.

O livro está há mais de 40 semanas entre os mais vendidos de não-ficção dos principais veículos dos Estados Unidos e começa a despontar também no Brasil. Típico caso de leitura fácil, rápida - pelo texto de Grogan, às vezes até enxuto demais - e emocionante para todos que já tiveram um animal de estimação.

“Marley & Eu” surgiu das crônicas escritas pelo americano para sua coluna no “Philadelphia Inquirer”, que fizeram o número de cartas comentando os textos subir de 20 para 800 por semana. Uma das mais lidas foi justamente a da morte de Marley, labrador desajeitado e de grande influência na família do autor.

No livro, Grogan conta que o labrador cor de palha foi adquirido pelo casal para testar sua capacidade de criar um filho, mas o novo morador tornou-se um verdadeiro teste de adaptação dos recém-casados ao comportamento canino. As histórias acompanham a formação da família que Marley passa a integrar, com Grogan, a esposa Jenny e os filhos. Em um dos episódios mais emocionantes, Grogan lembra como Jenny chorou a perda da primeira gravidez e comemorou a chegada do primeiro filho ao lado do fiel cão.

As crônicas mostram a vivência nos 14 anos em que Marley esteve ao lado da família Grogan e o quanto eles aprenderam a aceitar seu espírito canino e comportamento indomável. “Nós havíamos trazido para casa um ser vivo e pulsante, não um acessório de moda para enfeitar um canto da sala. Ele era parte de nossa família e, apesar de todos os seus defeitos, ele correspondeu mil vezes ao nosso amor”, relata o autor.

Grogan mostra-se um observador atento e descreve com humor os defeitos e qualidades de Marley, com considerações ricas sobre seu comportamento. Ao deixar Marley sob os cuidados de uma amiga, ele escreve um verdadeiro dossiê sobre o labrador, com recomendações como: “o melhor modo de ministrar as vitaminas é simplesmente deixá-las cair no chão e fazer de conta que ele não deveria comê-las”.

Apesar de alguns erros na tradução, o livro diverte e emociona.

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Trecho de “Dizendo adeus a um fiel companheiro”

“Assim que amanheceu, procurei pela pá na garagem e desci a colina até onde termina o gramado e começa a floresta. Ali, sob uma cerejeira silvestre, comecei a cavar. A terra estava fofa e milagrosamente sem gelo, e consegui trabalhar rápido. Era estranho estar ali no quintal sem Marley, o labrador que por treze anos vivia grudado ao meu lado toda vez que eu me aventurava a sair, fosse para colher tomates, arrancar erva daninha ou pegar a correspondência na caixinha do correio. E agora eu estava ali sozinho, cavando um buraco para enterrá-lo.

“Jamais haverá outro cão como Marley”, disse meu pai quando lhe reportei que afinal eu tivera de anestesiá-lo, para que ele pudesse descansar em paz. Foi o maior elogio que nosso cão poderia receber.

Nunca disseram que ele fosse um grande cachorro - ou mesmo um bom cachorro. Ele era tão selvagem quanto um banshee irlandês e tão forte quanto um touro. Ele atravessava a vida alegremente com um gosto mais freqüentemente associado aos desastres naturais. Ele foi o único cão que conheci que foi expulso da escola de adestramento.

Marley mastigava almofadas, destruía telas, babava e revirava latas de lixo. Ele era tão grande que ele podia devorar o que estivesse em cima da mesa da cozinha com as quatro patas no chão - e sempre fazia isso toda vez que não estivéssemos olhando.

Marley destruiu mais colchões e perfurou mais paredes de compensado do que consigo me lembrar, quase sempre provocado pelo pânico que sentia com a aproximação de trovões, seu inimigo mortal. Bonitinho, mas estúpido.”