09 de julho de 2026
Cultura

Homenagem à altura

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 5 min

Algumas músicas poderiam ser classificadas em antes e depois de Cássia Eller. A melodia poética de Nando Reis em “O Segundo Sol”, ou até mesmo a adolescente “Malandragem”, de Cazuza, por exemplo, parecem só ter existido depois da voz negra de Cássia. Repetindo a percussionista Lan Lan, “tudo ficou sem graça com sua partida”, em 2001. Depois de cinco anos, Lan Lan se encontra novamente com o repertório de Cássia no show “Eller”, apresentado nesta noite no Teatro Municipal com músicos bauruenses.

A homenagem em tom de saudade traz de forma cronológica as principais músicas interpretadas por Cássia, divididas em três blocos. No primeiro, “Socorro”, “Por Enquanto” e “Na Cadência do Samba” mostram uma cantora ainda anônima pelo grande público. O CD “Com Você Meu Mundo Ficaria Completo”, lançado em 99, é o tema do segundo bloco e - como não poderia deixar de ser - as canções do “Acústico MTV - Cássia Eller”, de 2001, fecham o espetáculo.

Extrapolando o repertório, a intimidade de Cássia Eller também foi responsável pelos figurinos e cenários criados por Fernanda Laborda. Um tabuleiro de xadrez, como o do videoclipe de “Malandragem”, será o palco para os músicos João Paulo (voz, violão e percussão), Leandro Tripodi (guitarra) e André Fonseca (violões), do Monte de Bossa, Ronaldo Diegoli (teclado), da banda Amsterdam, Marcelo Miranda (baixo), Paulinho (bateria e percussão) e Adílio (cavaquinho).

Foram mais de cinco meses de ensaios para garantir a fidelidade dos arranjos e o timbre contralto de Cássia. “A maioria das músicas do segundo bloco é arranjo nosso, mas o restante é original às gravações de Cássia”, diz o idealizador do projeto, o vocalista João Paulo. Mas o músico adianta que o maior desafio não será com os arranjos, mas atingir o tom da cantora. “Cantar no tom da Cássia é uma responsabilidade muito grande”.

Os momentos de preparação, cada música do show, emoções e reação do público não ficarão apenas na memória. Tudo será registrado por três câmeras para o DVD que deve ser lançado em um mês. “Inicialmente, não vamos comercializar o DVD. Será apenas um material de divulgação que pretendemos divulgar em centros culturais de todo o Estado para levar o projeto para outras cidades. Isso não pode morrer”, espera João Paulo.

Lan Lan

A baiana Elaine Silva Moreira, a Lan Lan, defende atabaques, cajons e pandeiros como ninguém. Sua habilidade com a percussão acompanhou Cássia Eller desde as gravações do disco “Veneno Antimonotonia”, em 93, até a morte da cantora, em 2001.

“Nossa relação foi marcada por liberdade profissional e respeito. A gente trabalhava com o peito aberto. A Cássia escolhia as músicas que eram marcantes para ela. Por isso que conseguia dar uma interpretação tão única às composições”, recorda Lan Lan.

A proximidade das artistas motivou o convite para a apresentação em Bauru. “Queríamos chamar alguém que fosse íntimo de Cássia. Pensamos em muitos nomes e o da Lan Lan surgiu naturalmente como o mais viável”, afirma o vocalista João Paulo. Convite feito, convite aceito. “Vou participar de qualquer manifestação cultural à altura dessa nossa grande intérprete que foi a Cássia”, diz Lan Lan.

O primeiro ensaio com os músicos de Bauru será hoje, mas o pouco tempo não é problema para quem passou oito anos ao lado de Cássia. “Nós temos discutido o repertório por e-mail. Um único ensaio será suficiente. Logo no primeiro acorde, me virá toda a lembrança”, afirma a artista.

No show, Lan Lan se unirá aos músicos bauruenses a partir do segundo bloco e, fora os batuques, mostrará ao público uma vertente pouco explorada: a de cantora. “Foi Cássia quem me incentivou a atuar também como cantora e, em Bauru, vou cantar uma ou duas músicas com a moçada. Mas não vou dizer qual, será uma surpresa”, diz.

Com a morte de Cássia, o vazio e a reclusão. “Perdemos uma das maiores intérpretes brasileiras. Ela tinha uma sensibilidade enorme para conduzir o trabalho e o seu dia-a-dia com as pessoas. Demorei um pouco para voltar a tocar, mas, com o tempo, a gente volta a respirar”, diz.

Em 2003, Lan Lan lançou seu primeiro CD, “Com Ela”, à frente da banda Os Elaines. Há dois anos, ela participou do projeto Tresloucados, com shows ao lado de Preta Gil e Davi Moraes. Paralelamente a esse trabalho, Lan Lan desenvolve desde 2004 o Moinho da Bahia, um projeto de samba com shows semanais na Lapa, no Rio de Janeiro.

• Serviço

Show “Eller”, com participação de Lan Lan, hoje, às 20h, no Teatro Municipal (avenida Nações Unidas, 8-9). Ingressos à venda no teatro, Tatuaria Brasil ou com divulgadores por R$ 16,00 e R$ 8,00 (estudantes com comprovante e maiores de 60 anos). Mais informações: (14) 3018-5683 e 3235-1072.

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Eller

Cássia Eller nasceu no Rio de Janeiro em 1962. Morou em Santarém (PA), Belo Horizonte (MG) e Brasília (DF). Tocando violão desde os 18 anos, chegou também a cantar ópera e frevo e a tocar surdo em grupo de samba. Voltando ao Rio de Janeiro, em 1990, foi contratada no mesmo ano pela Polygram.

Seu primeiro disco, “Cássia Eller”, de 1990, incluiu regravações de Itamar Assumpção, Legião Urbana e Beatles. O segundo, “Marginal”, trouxe “ECT”, de Marisa Monte, Carlinhos Brown e Nando Reis. No terceiro disco, Cássia Eller gravou uma versão de “Malandragem”, de Frejat e Cazuza, muito tocada nas rádios.

Em 1996, lançou “Ao vivo”, gravado nas apresentações carioca e paulista do show “Violões”. Em “Veneno Antimonotonia”, 1997, traz somente composições de Cazuza. Em 2001, lançou o “Acústico MTV - Cássia Eller”. Impôs-se por seu estilo enérgico de interpretação, principalmente em razão de seu timbre vocal - uma das mais marcantes vozes da nova MPB. Faleceu no Rio de Janeiro em 29 de dezembro de 2001, aos 39 anos de idade.

Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira