08 de julho de 2026
Cultura

Samba soul

Diego Molina
| Tempo de leitura: 4 min

Antes, Paula Lima curtia a aura de diva meio imposta a ela. Seus figurinos exuberantes, decotes e o cabelão eram parte de um personagem que nunca deixou de ser a própria cantora. “Tudo sempre foi natural. Mas agora, só uso calça jeans, camiseta e tênis. O cabelão continua (risos), mas está solto. É o que eu busco”, diz a paulistana, que lança seu terceiro CD, “Sinceramente”, com o mesmo clima dessa “nova Paula”, hoje com 35 anos.

O disco é reflexo de um momento de vida mais seguro, maduro e tranqüilo. Em nova gravadora, a Indie Records, a cantora comenta que teve liberdade total para a criação do novo disco. E a busca de um novo caminho a levou diretamente às origens. “Foi a busca pela minha essência, a raiz. Comecei a pré-produção com o Walmir (Borges), parceiro de 6 anos com quem tenho uma relação muito sincera. Ao buscar essa essência, achei o samba, que nasci e cresci ouvindo, não foi um acidente, e quis dar a essência do samba a todas as músicas do disco, mas esse samba urbano, com todas as influências do que ouço”, comenta, em entrevista por telefone ao JC Cultura.

A ex-vocalista do Funk Como Le Gusta, entretanto, nega uma busca pelo rótulo de sambista. “Não sou nem tenho pretensão de ser. Queria apenas mostrar quem eu sou, minha trajetória, tudo o que absorvi na minha vida”, esclarece. A busca por uma essência, segundo Paula, veio de um “stop” realizado no ano passado. “Quando dei esse ‘stop’, passei a me ligar a pessoas que pensavam como eu, que sentiram o trabalho como eu. Não há como não falar, o CD reflete esse meu momento espiritual, estou mais mulher”, frisa.

O repertório escolhido para “Sinceramente” comprova o amadurecimento e o foco da intérprete e compositora. Ao contrário de seu último disco, em que atirou para diversas vertentes da black music e da soul e provocou resultado muito heterogêneo, o novo CD alcança a unidade que Paula buscava. As influências de funk e soul estão em todas as canções, mas o tom é mesmo esse “samba urbano” do qual ela fala.

O disco abre com “Novos Alvos” (Zélia Duncan, Mart’Nália e Ana Costa), uma espécie de bossa soul. “Abro disco com essa música porque ela mostra o momento de tirar as dúvidas e tomar o comando, que foi o que fiz”, explica. O tema é constante no repertório do disco – e de Paula. “Isso é muito meu mesmo, de gostar de olhar no olho, de cabeça erguida, de conspirar sempre para o bem com pessoas que fazem isso também. Quero ser o mais honesta possível comigo. E adoro a coisa da mulher guerreira, adoro cantar assumindo esse papel”, completa.

Para Paula, “Eu Já Notei”, de Ana Carolina e Totonho Villeroy, também segue com o mesmo clima. “Sou de decidir, Sou de me guiar/ Sou guerreira, não se espante/ Faço meu caminho sem desviar/ Ou me queira ou se mande”, diz a letra. “Ela tem um conceito de amor, porém, parando para analisar, é a minha trajetória na letra. Obviamente quero ser feliz e fazer as pessoas felizes, mas quero cuidar de mim. Adoro o bom humor nas letras, mesmo falando de separação ou de sofrimento, digo que a fila andou, não me ligue às 4h da manhã”, diz Paula, fazendo referência a outra música do disco, “Já Pedi Pra Você Parar”, de Arlindo Cruz e Babi.

“As músicas do Arlindo têm essa malandragem muito meiga e ingênua, parece até uma criança falando. Mas o disco tem um lado social, como em ‘Saudações’ (inédita de Leci Brandão e Paulo Henrique), na qual reverencio minha raça e o povo brasileiro, que está passando por um momento alucinante. Ao mesmo tempo em que ficamos decepcionados, não perdemos o equilíbrio”, acredita a cantora.

A segura maturidade fica impressa em “Negras Perucas” (Marcus Vinicius e Nilo Pinheiro), em que Paula canta: “Deixa esse cabelo solto/ Que eu faço questão de olhar/ Deixa essa alma acesa/ Não deixe jamais apagar (...) Seremos jovens por dentro/ Com brancos véus/ Negras perucas”.

Outros destaques são “Como diz o Ditado” (Edu Tedeschi), com órgão e clima de baile black; o samba “Tirou Onda” (Arlindo Cruz, Acyr Marques e Maurição); “Cuidar de Mim” (Seu Jorge, Rogê e Gabriel Moura), que mostra como Paula é intérprete na medida para os versos de Seu Jorge; e “Quero Pegar” (Totonho Villeroy), com levada de violão suingado.

“Sou libriana e tenho sempre que buscar meu equilíbrio. Esse disco tem até mais experimentações, tem DJ, mas é todo orgânico. Quero essa brasilidade percussiva nas minhas músicas. Estou apaixonada por esse disco”, finaliza Paula.