08 de julho de 2026
Nacional

Giorgetti acerta com segundo ‘Boleiros’

Por Inácio Araujo | Folhapress
| Tempo de leitura: 2 min

“Boleiros” não foi um grande sucesso de público. Era uma resposta ao desafio de fazer um filme sobre futebol e começou por esbarrar na estranha palavra do título - que, curiosamente, depois disso e aos poucos, se tornou popular. “Boleiros” também não foi um dos melhores filmes de Ugo Giorgetti.

A estrutura simples (ex-jogadores em um bar contavam histórias do futebol de seu tempo) e talvez a falta de hábito de produzir filmes sobre o esporte pesaram para que o resultado fosse mais simpático do que profundo. Assim, tudo incita a indagar “Boleiros 2” começando pela pergunta: por que fazer “Boleiros 2”?

Se Ugo Giorgetti disser que era para retificar o primeiro, seria um bom começo. Com efeito, o futebol deixa aqui de ser o centro dos acontecimentos para se tornar um ponto de observação do mundo ao seu redor - a cidade de São Paulo e, mais amplamente, o Brasil. Ganha, com isso, a amplitude que o primeiro “Boleiros” ameaçou ter, antes de se afirmar como um filme da memória. Mas, se Giorgetti disser que se trata de retificar não o filme original, mas a própria sociedade a observar, também estará começando bem.

Vejamos apenas uma mudança, evidente porque envolve a cenografia. O velho bar-sede, de cores discretas e decoração quase austera, foi reformado e substituído por um colorido estridente, plástico, em que o bom gosto leva uma tunda vergonhosa. Os velhos jogadores continuam lá, mas agora já não parecem os donos do pedaço. Ficam confinados no mezanino, quase à margem de um mundo atual que, no térreo, se constrói não apenas sem eles, mas contra eles. Contra o passado, contra a memória com craques negociantes, empresários raposas etc.

Aos poucos, compreendemos então que “Boleiros 2” não é bem um filme sobre futebol, mas sobre a história: o correr inexorável do tempo, as transformações, a lembrança e o esquecimento. Não será exagerado qualificar Giorgetti de passadista. Cada vez mais, seus filmes aprofundam o registro agridoce que os caracteriza desde, pelo menos, “Festa”.

O presente, porém, cada vez mais parece desprovido de civilidade e educação. O gosto que degenera não é mais que sintoma de uma involução geral, ou de uma evolução para a barbárie, que inclui a corrosão pela ânsia de lucro e a decorrente desonestidade.

Se Giorgetti se abre para a história, ela equivale a isso: fracasso, degeneração. Como tudo, o mundo do futebol tende a piorar. O que no primeiro filme era presságio cruel (o menino problema da escolinha de Adriano Stuart) transforma-se em tragédia. Como seu predecessor, “Boleiros 2” é um filme em que os personagens existem para servir às situações. Elas comandam. A soma delas produz a impressão geral neste filme que não impressiona pela beleza da luz ou pela precisão dos enquadramentos, mas por uma disciplina que nos permite ver um quadro atual das coisas - tal como as vê seu autor.